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   Meu Diário Espiritual
  Diário espiritual de Pedro Gontijo

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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#11
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Brasília, 19/6/06

Dia de São Romualdo, abade


O Deus cotidiano

Com mais de um ano sem escrever em meu diário espiritual, embora guardando-o muitas vezes em pensamento, eu olho para meu crescimento ao longo dos meses e percebo quanto mudou minha vida e meu cotidiano. O trabalho, agora consolidado e rotineiro. O estudo, modificado e com outro ritmo e objetivo. Um objetivo de vida transformado após meses de tribulação íntima e incertezas.

Se puder resumir todos esses meses em uma palavra, ela seria espera. A espera é talvez a ação mais exigente para a vida de um cristão. Não é passiva e traz o cansaço. Não é lógica ou inteligível. Esperar no Senhor, um moto tão repetido, é insensato para a mente humana, e portanto tão difícil.

Cansei de esperar. Esperei uma certeza na vocação que nunca vem o suficiente. Esperei um desejo de companhia que nunca apareceu. Esperei uma vida de oração simples, confortável e automática como se não existisse nenhum aviso bíblico de que ela seria laborosa e cansativa.

Esperando, esperei no Senhor e para mim muitas vezes Ele fez-se invisível, distante, ausente. Como esperar cansa, cansa de modo tal que só chego a uma certeza: que minha própria força é insuficiente e que devo contar com a força de Deus se quiser superar esse cansaço.

Cansei, mas não desisti. Estou fraco, mas não morto. Resisto com uma força que não é minha e isso me espanta, como espantou São Francisco: "Quem és Tu, Altíssimo Senhor, e quem sou eu?"

Quem és Tu, Senhor?
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Pedro Gontijo

Ecce Crux Domini, fugite partes adversae: vicit Leo de Tribu Iuda!

Nos autem praedicamus Christum crucifixum, Iudaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam - I Cor 1, 23
Enviado em: 19/06/2006 17:20
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#12
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Brasília, 28/6/06
Dia de Santo Irineu, bispo e mártir


Domingo passado, admitido como ministrante para o serviço do altar em minha paróquia.

O serviço do altar, aos sacerdotes e ministros, é em uma palavra lindo. Noutra, próximo. E feliz.

Seguindo o conselho de uma amiga, gravei em minha memória a seguinte frase: "Nunca se acostume com as coisas de Deus". Acostumamo-nos com os ritos, rotinas, com aquilo que já foi dito e pensado mil vezes. Mas Deus, muito além do que podemos compreender, nunca será rotineiro, e assim são as coisas que Lhe pertencem.

Não tornei-me ministrante antes por dois motivos. Primeiramente, perdi a oportunidade. Quando soube da formação já estavam quase por admitir os novos ministrantes. O outro era medo. O serviço sempre me admirou, a vontade não faltava, mas tinha medo do que viria depois. Num tempo de dúvida vocacional e fraqueza na vida de oração, eu alimentava o medo de que entraria num caminho sem volta para o qual não estava preparado. Isso vem de conceitos equivocados: de que apenas religiosos e pessoas com vida de oração perfeita podem se dedicar com mais afinco à religião -- sendo que as últimas não existem como imaginamos.

Agora, como ministrante, começo a perceber o contrário do medo que tive. É necessário que tenhamos leigos engajados dessa forma para mostrar aos outros que não é só de padre e de carolas que a Igreja vive. É preciso aceitar certas tarefas intensas para reconhecer a humildade em fazê-las quando não somos perfeitos. Essas conclusões, antes só presentes em minhas idéias, agora fazem parte da minha vida cotidiana. O Deus cotidiano que tanto procurei em sonhos finalmente começa a aparecer na minha percepção tão limitada.

O tempo passa e me adapto ao que me é exigido. Exigem-me pragmatismo e objetividade, logo procuro Deus com orações pragmáticas e concretas. Antes era mais novo e vivia uma oração mais jovem e sublime; hoje trabalho e quero trabalhar, e vivo uma oração mais laborosa, quase que enfrentando a racionalidade, mas feliz de encontrar o Senhor ao fim do dia. As coisas antigas ficaram para trás, e o Senhor tem a onipotência de fazer o novo para que nós não nos acostumemos com Ele.
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Pedro Gontijo

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Enviado em: 28/06/2006 13:03
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#13
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Brasília, 18/7
Dia de São Francisco Solano

Homilia de São Gregório Magno, papa, para o evangelho de hoje (Mt 11, 20-24).

Citando:
Exposição sobre os sete salmos da penitência

“Jesus começou a fazer censuras às cidades que não se tinham convertido”

Gritemos com David; ouçamo-lo chorar e vertamos lágrimas com ele. Vejamos como se corrige e alegremo-nos com ele: “Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa misericórdia” (Sl 50, 3).

Coloquemos diante dos olhos da nossa alma um homem gravemente ferido, quase prestes a exalar o seu último suspiro, que jaz nu sobre o pó do caminho. No seu desejo de ver chegar um médico, geme e pede àquele que compreende o estado em que se encontra que tenha piedade dele. Ora, o pecado é um ferimento da alma. Tu, que és esse ferido, compreende que o teu médico se encontra dentro de ti, e descobre-lhe as chagas dos teus pecados. Que Ele oiça os gemidos do teu coração, Ele que conhece todos os pensamentos secretos. Que as tuas lágrimas o comovam e, se for preciso procurá-Lo com uma certa insistência, do fundo do teu coração, faz subir até Ele suspiros profundos. Que a tua dor chegue até Ele e que também a ti te digam, como a David: “O Senhor apagou o teu pecado”.

“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa misericórdia”. É pouca a misericórdia que atraem sobre si aqueles que fazem diminuir a sua falta porque não conhecem esta grande misericórdia. Por mim, caí pesadamente, pequei com conhecimento de causa. Mas Tu, médico todo-poderoso, Tu corriges aqueles que Te desprezam, instruis aqueles que ignoram a sua falta e perdoas àqueles que Te confessam.


Poucas vezes precisei tanto ouvir palavras tão sábias. Graças a Deus.

Editado por pedrogm em 18/07/2006 15:43:39

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Pedro Gontijo

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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#14
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Realmente Pedro! Além destas palavras serem sapientíssimas, são muito profundas!

Gostei tanto que tomei a liberdade de postar em nossa seção de artigos.

Beijinhos,
Márcia
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.........
Antes de imprimir, pense em seu compromisso com o Meio Ambiente.
Enviado em: 19/07/2006 10:05
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#15
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Brasília, 27/7/06

Dia de Santa Natália e companheiros


«Em verdade vos digo: Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram, e ouvir o que estais a ouvir, e não ouviram.» (Mt 13,17)

O tempo passa e fica mais clara a principal dificuldade da vida adulta: indiferença, traduzida em desdém, ceticismo, uma busca tão grande pela concretude da vida cotidiana que a fé parece coisa de criança. Na verdade, a fé de criança vai ficando para trás, e temos agora de cultivar a fé de adulto (cf. I Cor 13, 11). Deixa-se para trás o que é velho, abraça-se o que é novo.

Meu ministério de acolitato veio em hora providencial para essas reflexões. Ao entregar a túnica, o pároco pronunciou as palavras "Recebe estas vestes em sinal do homem novo". Ao vestir a túnica oro: "vesti-me, Senhor, num ministrante novo, que vive conforme Sua santa vontade". O novo nem sempre é como um presente para uma criança; pode ser estranho, provocar o medo e a insegurança, ou mesmo não parecer novo. Mas muda.

Deus nos oferece o novo para revelar-Se. Ele é o Eterno, e o que é eterno sempre é novo. E porque estamos muito preocupados com coisas passageiras, desprezamos o novo e o ridicularizamos. Deus colocou-Se ao nosso lado e nós não damos valor. Como somos privilegiados de tê-Lo tão próximo e ainda assim não O percebemos!

Quantas vezes vemos um católico permitindo-se transgredir o que Deus nos pede por não considerar importante? Dizem que defender a família é ultrapassado, que fazer sexo antes do casamento já não é mais pecado porque todo mundo faz, que não viver a própria fé com amor, constância e retidão é justificável pelo excesso de afazeres diários. Isso é uma forma de sacrilégio, de desprezo pelo sagrado que já lhe foi apresentado. É recusar a liberdade que Cristo promete com Sua Palavra ao ceder ao comodismo de não fazer escolhas, de não se esforçar um pouquinho mais para ser feliz de verdade.

Se mesmo assim pensam que Deus é distante, cito São Pedro Crisólogo (c. 406-450), Doutor da Igreja, que comentou sobre este Evangelho:

Citando:
Em todos estes acontecimentos [da História da Salvação], a chama da caridade divina abrasou o coração dos homens […] e estes, de alma ferida, começaram a desejar ver a Deus com os olhos da carne. […] O amor não admite não ver aquilo que ama. Não é verdade que todos os santos consideraram pouca coisa tudo quanto obtinham quando não viam a Deus? […] Que ninguém pense, pois, que Deus fez mal em vir ter com os homens por meio de um homem. Ele tomou carne entre nós para ser visto por nós.


Paz e bem.
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Enviado em: 27/07/2006 11:16
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#16
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Às vezes a indiferença é causada também pela falta de perseverança, meu amigo.

Ore, confesse seus pecados, comungue. Mesmo que pareça não "ver" a Deus, dessa forma Ele estará sempre com você.

Devo dizer que você é um exemplo de perseverança para mim, pois isso é algo que ainda estou aprendendo.

Paz e Bem!
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Enviado em: 28/07/2006 14:12
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#17
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Dia de São Pio de Pietrelcina, sacerdote.


Sinto-me ressecado pela falta de perseverança. É engraçado como tenho vontade de ler, de escrever, de tocar, de ouvir música, de estudar e de rezar (inclusive o breviário), mas não faço nada disso direito ou até o fim.

A perseverança é para tudo na vida. Sofro de um desvio de atenção que me atrapalha principalmente na vida espiritual.

Padre Pio, franciscano, sacerdote, estigmata e grande confessor, adentrou a glória dos céus neste dia, há 30 anos atrás. E a sete o conheci por intermédio de um frade devoto. Há um ano voltava da Europa com três imagens dele, disposto a aprender mais sobre sua vida. Ele era conhecido por sacudir as pessoas da sua letargia pecaminosa e acordá-las para uma vida santa. É disso que eu preciso: de uns tabefes de Padre Pio. Falta-me perseverança porque me falta iniciativa, e esta me falta porque minha confiança em Deus -- e, por que não, minha crença n'Ele -- está fraca. Mais do que acordar, preciso de forças para me levantar.

Dom Albino Luciani, patriarca de Veneza que depois foi eleito Papa João Paulo I, escreveu certa vez:

Citando:
"Suponha que o incrédulo seja alguém que dorme; Deus o acorda e diz: 'Saia da cama!' (...) Nós, que dormimos, somente Ele acorda; compete a nós sair da cama, ainda que precisemos de mais ajuda Dele ao nos levantarmos. De fato, a graça de Deus possui uma força, mas não procura forçar; possui uma violência santa, mas que nos faz apaixonar pela verdade, e não violenta nossa liberdade. Pode acontecer que, uma vez acordado, convidado a se levantar e segurado por um braço, alguém se volte de costas, dizendo: 'Deixa-me dormir!'. No Evangelho encontramos casos do gênero. 'Vem e segue-me', disse Cristo e Levi se levanta do banco e vai atrás Dele; outro, por sua vez, responde ao ser convidado: 'Deixe-me primeiro enterrar meu pai', e não aparece mais. São pessoas, reflete Cristo tristemente, que empurram o arado olhando para trás."


Estou empurrando o arado e olhando para trás. Peço a Deus para me deixar dormir. Peço a Ele: "Deixe-me primeiro estudar, trabalhar, ganhar o meu dinheiro, enfrentar esse trânsito, passar o Segue-me, chegar nas minhas férias, depois eu penso em Te seguir". E ainda repreendo quem faz isso!

Por isso digo que estou ressecado. A planta ressecada ainda não está morta, apenas espera a chuva para ficar verde novamente. Estou esperando um momento para dizer: "Pronto, aumentei minha fé!", quando na verdade Cristo me diz: "Levanta-te, vem para o meio! Toma a sua cruz e me siga!". Aspetto, ma non lo so che bisogno d'aspettare. Na verdade não há nada a esperar, somente pelo que agir.

Por que então não ajo?

É como uma carga de trabalho que está para realizar. Se se espera e adia o trabalho, ele acumula. A pilha de papel aumenta gradativamente até um momento que toda a disposição conseguida para trabalhar não é suficiente sequer para começar a se desvencilhar do acúmulo de tarefas. Na vida de fé também é assim: depois de muito tempo parado, especialmente por preguiça, não se faz nem um sinal-da-cruz.

Confessei-me ontem e o padre passou como penitência "um ato de caridade, para que Deus veja seu esforço em reencontrá-Lo". Saí do confessionário me perguntando: "Que esforço? Eu não me esforcei nada, ou estou sendo muito duro comigo mesmo?" O esforço que preciso concentrar não é de mais oração, penitência, caridade: no limite, é simplesmente de reconhecer a Deus como o Senhor da minha vida, em todas as pequenas coisas. Isso é o mais difícil.

São Pio de Pietrelcina, rogai por nós.

Editado por pedrogm em 24/09/2006 12:57:43

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Enviado em: 23/09/2006 23:20
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#18
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Dia de Santa Pelágia


Nesta semana encontrei um grande amigo que não via há algum tempo. Ele é ex-frade do convento da nossa comunidade e tive longas conversas sobre vocação com ele, quando ainda era seminarista: sobre a minha, e depois (não sem espanto) a dele. Ele talvez saiba mais sobre mim do que qualquer um com quem já tenha tocado no assunto.

Desta vez não foi diferente. Após nos inteirarmos das novidades mais recentes, ele me perguntou sobre a minha vocação.

Eu me enganei sobre como é tomar uma decisão vocacional. Pensava que, após certa labuta e incerteza, alguma indecisão e bastante dilema, chegaria-se numa decisão. Uma vez tomada a decisão, viria o alívio da escolha bem feita, e então abria-se a estrada para conquistar os objetivos escolhidos. Mas vi que o processo é bem diferente: a verdadeira luta, o verdadeiro dilema, veio depois de tomada a decisão. Decidi-me, mas parece que a escolha me dói. A sensação às vezes não é de ter escolhido o matrimônio, mas de ter rejeitado o sacerdócio.

Ambas as vocações me atraem, mas o matrimônio está embutido no meu projeto de vida desde pequeno. O que me atrai no sacerdócio são coisas pontuais, que não considero decisivas; mesmo assim, a possibilidade em realizá-las me traz a dor em rejeitá-las. Por vezes não sei quais são os "bens" que eu tenho de largar para seguir a Cristo: minha futura família ou minha vida de pastor.

Não sei se isso se deveu a eu tomar a decisão pela metade. Estou num momento de vida em que tudo é um hiato: a vida profissional, acadêmica, amorosa, familiar, tudo está indefinido. Portanto, seria um pouco anacrônico exigir uma decisão vocacional definitiva. O receio agora é de postergar a definição, "empurrar com a barriga", permanecer numa inércia que pode prejudicar todas as oportunidades.

Vi que nisso tudo sou muito parecido com meu amigo ex-frade. Ele começou o caminho por outro lado e, passado um tempo, experimenta mais ou menos o mesmo que eu. Mas, como ele já teve a experiência da vida religiosa, talvez esteja um pouco mais firme e contente na sua decisão. Temos a mania de arriscar um pouco de italiano quando conversamos, e ao fim ele me perguntou:

- Bene, ma tutto sommato, stai felice?
- Si --
respondi.
- Molto felice?
- Più felice che prima
-- disse referindo-me ao ano passado, quando o desespero foi grande.

Despedi-me dele com a impressão de que havia mentido. Não sei se posso dizer que estou "mais feliz", não me sinto mais feliz que antes, sequer mais tranqüilo, apenas mais sereno. Nessas escolhas, a medida última é a felicidade, e por enquanto ela não chegou de todo.
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Enviado em: 08/10/2006 22:48
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#19
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Dia de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir

"Senhor, o que queres que eu faça?"
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Enviado em: 17/10/2006 10:45
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Re: Diário espiritual de Pedro Gontijo
#20
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Dia de Todos os Santos

Hoje completam vinte e quatro anos do meu batismo. É um importante aniversário espiritual que gosto de comemorar. Engraçado que sempre me lembro dele quando a data se aproxima, mas quem me lembra dele no dia é sempre minha mãe. Hoje, Dia de Todos os Santos, é um bom dia para lembrarmos de todos os nossos irmãos, vivos ou defuntos, e orar com carinho por eles.

Anteontem comecei a rezar uma novena a São Padre Pio, pedindo e refletindo muita coisa que escrevi nas últimas entradas deste diário. Fiz o primeiro dia da novena à noite, antes de dormir. O dia seguinte correu normalmente, e logo de manhã, no trabalho, encontrei uma matéria do jornal La Repubblica afirmando que Padre Pio é o santo mais famoso da Itália. Fizeram uma pesquisa por telefone com um universo de "católicos praticantes" de todo o país e quase um terço deles diz recorrer a São Padre Pio, bem mais do que a São Francisco de Assis ou a Santa Luzia! O La Repubblica não é exatamente um jornal católico, por isso foi interessante encontrar essa matéria.

No fim do dia resolvi ir a uma igreja antes da minha aula à noite. A igreja fica bem perto do cursinho, daria tempo de rezar um pouco antes da aula começar. Quando chego lá, descubro que vão começar uma missa! Acabo por ficar para a missa mesmo achando que teria de sair antes do fim para não perder aula e tenho outra surpresa: a liturgia do dia. A leitura, aquela passagem da Carta aos Efésios que diz que "a mulher tem de ser submissa ao homem" (Ef 5,12-33). O Evangelho, a parábola do grão de mostarda (Lc 13,18-21).

O que me chamou a atenção foi a homilia. Transcrevo um pouco do que apreendi e que me tocou:

"Dizer que a fé é como um grão de mostarda é reconhecer que ela precisa de um tempo para maturar. Não podemos ter pressa para fazer crescer a fé. Façamos a nossa parte. A fé plantada nesta geração pode render frutos apenas na próxima. A fé plantada na juventude talvez só dê resultado depois de adulto. Ela está lá dentro, latente, esperando o tempo para crescer mais do que imaginamos."

"Essa passagem da Carta aos Efésios é maravilhosa: ela compara a união matrimonial com a relação de amor entre Cristo e Sua Igreja."

"O amor de Cristo por Sua Igreja -- entendida aqui no sentido amplo, ou seja, todos aqueles que O acolhem e O seguem, independente de instituições -- é o primeiro e o mais profundo. Para amar a Igreja, Cristo doou-se por ela, deu Sua vida por ela. Ora, isso é fazer-se o mais submisso frente a toda a humanidade. Para amar a Igreja, Cristo se colocou por baixo de todos. E é assim, segundo São Paulo, que o marido deve amar sua esposa."

"A Igreja então reconhece essa doação de Cristo e O segue, submetendo-se aos Seus mandamentos, que Ele nos deixou. Só é possível para a Igreja submeter-se a Cristo se Ele a ama primeiro. Da mesma forma, pela comparação de São Paulo, só é possível à esposa submeter-se ao marido se ela reconhece o amor submisso dele. O marido não faz por merecer a esposa; doa-se à graça de tê-la, em virtude do amor semelhante ao de Cristo pela humanidade. 'Por isso', conclui São Paulo, 'o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à mulher, e os dois se tornarão uma só carne' ".

E depois ouço a letra da música do ofertório, que dizia algo assim:

"Em frente ao Teu altar, Senhor, descubro a minha vocação / é a de dar a vida pelo meu irmão".

São Padre Pio já me "aprontou" essas coisas logo quando comecei a novena. Me chamou a atenção para ele, me deu uma missa de presente -- e como ele é apaixonado pela Sagrada Eucaristia! -- e confirmou minha vocação, tudo pelo amor infinito de Deus.

Isso é lindo. Agora, mesmo com pequenos problemas cotidianos, posso responder ao meu amigo ex-frade: "sono veramente felice!", uma felicidade verdadeira, suave e contínua. Desta vez, sem medo de mentir.

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