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Reconsiderando o gnosticismo
Publicado por Marcia em 09/6/2008 (3891 leituras)
Reconsiderando o gnosticismo
Em 1992 fui à uma conferência na costa oeste. Tive a sorte de ser levado ao aeroporto por um jovem aluno de graduação muito perceptivo, católico. Ao longo da conversa ele me disse que parou de freqüentar a paróquia católica local no dia que tiraram o crucifixo do altar e o substituíram por uma pintura da Mãe Terra sendo suspensa por inúmeras mãos estendidas, politicamente corretas, de diferentes etnias. Um padre onde eu estava celebrando a missa me contou sobre outra paróquia onde foi construída uma árvore da vida em vez do crucifixo. Os paroquianos protestaram tanto que conseguiram o crucifixo de volta. Isso ocorreu numa diocese onde o ordinário é contra o aborto. Outro jovem, dessa vez da costa leste, disse-me que assim que ouve o padre começar o sermão sobre justiça social, tema claramente identificável com um tipo específico de ideologia de esquerda, ele se levanta e sai.

Os símbolos são importantes. O estudante estava certo. Em Roma, estão dedicando considerável atenção à extensão com que o gnosticismo e o pelagianismo estão presentes na cultura moderna e nos muitos movimentos da própria Igreja Católica. O marxismo pode (ou não) ser “passé”, mas a “New Age”, o ecologismo, tudo o que parece ser justiça social, feminismo, religiões orientais, multiculturalismo, relativismo dogmático e suas variantes não o são. Cada vez mais está ficando difícil encontrar catolicismo no catolicismo. Como observou um jesuíta amigo meu, ao ouvir sobre o incidente da Mãe Terra, “Chegou a um ponto que estamos lidando com outra religião”.

Curiosamente muitos desses mesmos movimentos professam certo tipo de profundo espiritualismo. É-nos dito, talvez com muita freqüência, que nosso grande inimigo é o “materialismo”. Mas o materialismo nunca foi a heresia mais perigosa. De fato, todas as heresias e desordens da alma realmente perigosas surgem do espírito, na maioria das vezes, dos corações dos líderes clericais e acadêmicos cuja fé é forte, mas não forte o bastante para aceitar o conteúdo e a história da salvação como nos é dada, especificamente na revelação católica. Temos, sempre nos parece, uma religião cheia de entusiasmo, mas não de doutrina, ou ao menos não de doutrina católica.

O aspecto mais “inacreditável” do cristianismo clássico, parece, é exatamente o seu obstinado “materialismo”, sua inclinação à doutrina do Antigo Testamento onde a matéria é boa e ao Novo Testamento, que nos ensina que a Palavra se fez carne. O mal está enraizado na vontade, e não na matéria, nas máquinas, nas instituições ou na inteligência. O Cristo, afinal, só faz sentido se há algo de errado conosco que não podemos sozinhos, individual ou coletivamente, remediar. O Cristo só faz sentido se há algo em falta em nossas vontades e não meramente nas estruturas do mundo. O Novo Testamento tem muito a dizer sobre a conversão e o arrependimento, mas praticamente nada sobre política.

Qual o motivo dessa súbita preocupação de Roma com o gnosticismo? Penso ser um sinal de que finalmente a Igreja de Roma, em suas altas esferas está começando a perceber o grau da infiltração de idéias e de movimentos divergentes dos próprios ensinamentos sobre o que é ser Igreja. Essas idéias preocupantes vêm da própria cultura. A conformidade com a cultura parece o imperativo predominante da própria religião.

O padre Richard McBrian (“The Tablet”, 25 de janeiro de 1992) alardeou que Roma não poderia mais tocar nos teólogos dissidentes porque eles estariam protegidos pelas leis do Estado civil. O que isso significa, claro, é que, ao contrário, essas instituições civis estão fechadas em si mesmas e não podem admitir qualquer presença do catolicismo identificado com o que a Igreja Romana na verdade ensina e defende. Quando o erastianismo garante a igreja, ele garante a si mesmo. A igreja não é mais ouvida.

O Papa João Paulo II, tanto na encíclica “Centesimus Annus” (1991), quanto na encíclica “Redemptoris Missio” (1990) retoma o tema de que a própria cultura precisa de algo fora de si mesma para ser salva. Disse o saudoso Papa a um grupo de líderes culturais em Salvador, no Brasil (20 de outubro de 1991): “A respeito daquelas culturas vivas que devem ser salvas por Cristo, é essencial que o Evangelho, a fé e a religião exerçam um papel decisivo, imbuindo-nas de valores cristãos. Tampouco as culturas não compreenderam profundamente esses valores ou continuaram a encondê-los pelas influências perniciosas da secularização, do consumismo, do relativismo e outros males da era moderna que vive sem a mensagem do Cristo e a presença frutífera da Igreja”.

Nenhuma cultura está fechada em si mesma a ponto de excluir a vitalidade da revelação que se dirige a cada povo.

Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica, parece, ter se acomodado, na medida do possível, às culturas, crenças e sistemas políticos prevalentes. Isso, em si, não é mau. Surpreendentemente, no entanto, a Igreja tem se tornado cada vez mais capaz de perceber que aquilo especificamente seu não é mais conhecido ou ensinado. A “missão” cristã é pregar, na maioria das vezes, a modernidade, a autonomia humana e não o cristianismo. Na verdade, o catolicismo, em particular, está sendo excluído, de modo que sua única forma de presença se dá quando a própria linguagem e os princípios são modificados para se conformarem à cultura secular. A política de adaptação resultou num baixo nível de compromisso por parte da cultura secular, exceto na medida em que a Igreja concordar parecer com a cultura em que vivemos. A novidade radical do catolicismo é substituída pelo radicalismo da própria cultura.

Aqueles que leram Eric Voegelin (1901-1985), é claro, sabem que esse grande filósofo defendia que o gnosticismo é, de fato, o coração da modernidade. A modernidade é o projeto para retirar do cosmos e da natureza humana qualquer sinal de presença divina, origem ou destino transcendente. As idéias religiosas deveriam ser “imanentizadas”, transformadas em movimentos políticos com objetivos desse mundo. Essas idéias deveriam substituir o cristianismo com formas voluntariosas de intelecto humano projetadas sobre toda a humanidade sem nenhuma referência, a não ser a autonomia humana. A perfeição se torna “autorealização” onde o eu é percebido como não tendo nenhuma fonte, a não ser a autonomia humana, supondo-se que esse “eu” normalmente é o legado disfarçado de algum filósofo.

Há anos tenho refletido sobre esse fenômeno. Em 1962, escrevi um ensaio na antiga “American Ecclesiastical Review”, chamado “A significância permanente do gnosticismo” (The Abiding Significance of Gnosticism) e, em maio de 1986, escrevi sobre o “Gnosticismo católico” (Gnostic Catholicism). Assim, quando ouvi falar do ensaio do padre Giandomenico Mucci, S. J., “Mito e perigo da gnose moderna” (Mito e Pericolo della Gnosi Moderna), na revista “La Civiltà Cattolica” de 4 de janeiro de 1992, corri para a biblioteca Woodstock para lê-lo. Era, de fato, um ensaio fascinante e resumia várias linhas de pensamento que tem aparecido com regularidade, particularmente em jornais italianos, sobre a natureza da mentalidade religiosa contemporânea.

Toda essa controvérsia é sobre um aspecto da pergunta que fez Paul Johnson (revista “Crisis”, fevereiro de 1989) se a morte do marxismo significava o fim das “tentações totalitárias” por parte da elite cultural de nossa época. Essas elites foram formadas por ideais seculares de direitos e obrigações que prometiam alcançar o que o cristianismo nunca prometeu, a saber, um novo homem e uma nova Terra, trazendo para esse mundo todas as primorosas promessas que a fé chama de salvação. Mas essas promessas deveriam ser obtidas pela exclusão da fé e de seu entendimento de como a salvação deve ser alcançada.

Mucci considera que o “gnosticismo moderno” inclui nesse grupo, não só uma elite, como no gnosticismo clássico, mas toda a humanidade e todo o mundo, num “conhecimento” sobre a única felicidade do homem que engloba a todos. Essa felicidade é exclusivamente o resultado dos esforços do homem. Não há “palavra” ou natureza no mundo. Portanto, nenhuma “Palavra” pode se tornar carne. O gnosticismo moderno rejeita especificamente as noções de pecado e a conseqüente necessidade de salvação por Cristo. Cristo se torna um reformador social, uma inspiração para levarmos a cabo a aventura no mundo, que é a única jornada que existe. A preocupação de Karl Marx (1818-1883) de que o interesse pela vida após a morte impeça o interesse por essa vida não foi esquecida. Uma religião que apóie essa revolução mundana é bastante aceitável, mas uma religião que defenda as doutrinas cristãs clássicas é uma das ameaças mais perigosas. Esse medo da religião revelacional explica o crescimento do ódio pela Igreja quando ela se defende.

Sugerir que não há nada de errado com a estrutura intelectual da modernidade e da pós-modernidade, é claro, corre o risco de ser contra o “homem”. Num brilhante e pouco conhecido ensaio chamado “Ativismo na Igreja dos anos oitenta: política com o pretexto de religião?” (“Church Activism in the 1980's: Politics in the Guise of Religion?”, publicado em “Religion and Politics”, University of Virginia Press, 1989), Padre Ernst Fortin escreveu que um número crescente de cristãos “começaram a ver a fé como uma atividade dedicada à erradicação dos males que assolam a existência humana pela transformação da sociedade por meio de formas mais ou menos esquerdistas”. Quando tais projetos se tornam a principal forma de apresentação sobre o que é ser cristão, seja nos sermões de domingo ou nas revistas religiosas, então certamente há uma crise mais profunda do que muitos estão dispostos a admitir abertamente.

A tentação pelagiana volta hoje em dia em conseqüência do neo-gnosticismo, como escreve padre Mucci “Se com o gnosticismo moderno há declarada uma auto-redenção humana nesse mundo, é evidente que com essa abordagem também volta o mito de Prometeu. Essa postura prometeica inclui a consciência de uma moralidade todo-poderosa que professe alcançar o bem e imaginar todo o tipo de justiça sem recorrer ao auxílio teológico da graça. Se é possível medir a plenitude da apostasia da cultura moderna, diante da qual está a Igreja, ela deverá se lembrar, acima de tudo, que o homem, cada homem, não pode em condições normais e por um longo período de tempo, fazer o bem e permanecer bom sem o encontro histórico-salvífico com o Cristo” (“La Civiltà Cattolica”, 4 de janeiro de 1992).

O argumento não é de que não há coisas boas produzidas pelo mundo moderno. Ao contrário, a compreensão teórica dessas coisas, uma compreensão que possa estar baseada numa filosofia clássica e cristã leal a sua própria aspiração, está sendo apresentada num contexto gnóstico e pelagiano, mesmo quando os termos e ofícios cristãos estejam sendo utilizados para apoiá-la.

Assim, suspeito que a substituição do crucifixo por uma pintura da Mãe Terra (Gaia) numa paróquia católica comum revela de modo um tanto surpeendente que esse tipo de mentalidade está bem disseminado em nossa cultura. Talvez seja somente um erro ou uma aberração. Mas penso que Padre Mucci está bem mais perto do verdadeiro problema. Quando Eric Voegelin escreveu que “o gnosticismo é a forma da modernidade”, ele queria dizer que o humanismo moderno iria chamar tudo a si. Não restaria obstáculo ou orgulho humano, nem mesmo a própria realidade. A realidade, “aquilo que é”, não mais seria a “natureza”, ou seja, algo em si, algo já finito, algo a que nossas mentes estariam abertas para descobrir a verdade das coisas. Em vez disso, a realidade é o que desejamos na sociedade e no cosmos. Se Marx morreu, Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Martin Heidegger (1889-1976) apareceram. Mas esse aparecimento intelectual é, em si, uma “escolha”, uma escolha contra “aquilo que é”, e não uma necessidade intelectual. A escolha repousa no coração da modernidade que não reconhece nenhum outro princípio senão a si mesma como causa da distinção das coisas.

Padre James V. Schall SJ

Tradução de Márcia Xavier de Brito

fonte: www.cieep.org.br
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