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Além das limitações humanas
Publicado por Marcia em 27/5/2008 (1631 leituras)
Além das limitações humanas
O inteligente e irresistível depoimento da romancista norueguesa, prêmio Nobel de literatura, da sua trajetória à Igreja Católica. Os professores, as dúvidas, as convicções; tudo retratado com uma sinceridade selvagem, desde a infância até a serenidade do conhecimento da Fé.

Se todos os convertidos que retornam à Igreja Católica tivessem que descrever os seus caminhos para Roma, seria provável que nem dois sequer tenham seguido a mes­ma estrada. Nós, que aceitamos a afirmação da Igreja, de ser “a coluna e o fundamento da Verdade”, não nos admiramos de que sejam tantos os caminhos quantos os espíritos.



Quando os homens tão obstinadamen­te se apegam à esperança de que será impossível para a humanidade encontrar a Verdade Absoluta, é porque supõem que a vida perderia todos os seus encantos e ha­veria uma limitação à nossa liberdade, caso existisse uma verdade – uma simples ver­dade, na qual todo o resto estaria compreen­dido. Por vezes, muitos de nós temos acha­do intolerável que duas vezes dois sejam sempre quatro. É, entretanto, sobre a acei­tação deste dogma enfadonho que deve re­pousar a possibilidade de se desenvolverem a maior parte dos talentos e ações indivi­duais de alguém. Se um homem se reserva a liberdade de agir e calcular com a con­vicção pessoal de que duas vezes dois sejam cinco, ou nada, ou sete, terá ele que sofrer as consequências. Entre estas, as represá­lias dos seus semelhantes, quando tiverem que liquidar contas com ele tendo por base uma taboada de multiplicar tão subjetiva.



Da mesma forma todos nós experimen­tamos, pelo menos como um capricho pas­sageiro, esse desejo ardente por uma terra de sonho em que duas vezes dois valham tanto quanto nós, no momento, desejaría­mos que valessem. Realmente, a liberdade de qualquer terra de sonho é ilusória, pois na verdade o número de tipos e combinações do sonho é limitado. A vida do sonho é regulada por leis em grau maior do que muita gente imagina. Porém o que desco­nhecemos não nos impressiona e, assim sen­do, imaginamos que implica esplendorosa li­berdade o transferirmo-nos para um mundo cujo sistema e qualidade nós próprios de­terminamos. Tal, porém, não é o caso na rea­lidade em que nascemos, onde a natureza essencial e a propriedade dos seres são fixados e ligados por leis.



Ao que saibamos, uma via única existe para que a humanidade seja livre. Pode o homem escolher seu caminho entre um labirinto de causas e concatenações e terminar não raro a sua tentativa num emaranhado que o segura e prende firmemente. Neste mundo, só podemos atingir uma única espécie de li­berdade, aquela a qual Nosso Senhor se refere ao dizer: “A Verdade vos libertará”. Contu­do, mesmo após haver o homem reconhecido a liberdade, e por ela ter sido libertado, de modo que os fatores determinantes na vida não mais o encadeiem, não pode ele manter tal liberdade a não ser a custa de uma luta incessante contra os poderes a que escapou e, em primeiro e especialmente, contra a tentacão de volver um olhar saudoso àquela terra de sonho, onde dois mais dois teriam qualquer valor que ele desejasse e onde ele próprio poderia decidir a respeito de qual­quer coisa que devesse existir.



É bem compreensível, de certo modo, esta ingenuidade do homem moderno em procurar livrar-se da autoridade da Igreja. Verificamo-la no esforço contínuo que ele faz para fugir a qualquer coisa que pretenda ser autoridade. Ainda, esses esforços para evi­tar a sujeição e esta luta contra uma Igreja, a qual sempre reclamou abertamente o reconhe­cimento de sua autoridade, não são peculiares ao homem moderno. A mesma tendência exerceu grande poder sobre os judeus, em Jerusalém, nos dias anteriores à Páscoa, no ano da crucificação de Nosso Senhor.



Contudo, talvez poucos convertidos pos­sam explicar a própria conversão: dizerem como foi vencida a sua oposição Àquele que a Si próprio se denominava o Caminho, a Verdade e a Vida, – oposição ditada pelo medo e pela desconfiança. Necessariamente implica isto o auxílio daquela força mística e sobrenatural que os teólogos denominam “graça”. Nada mais podemos dizer alem das nossas experiências diárias, até que chega um dia em que sentimos a injustiça da nossa oposição. O homem nutre uma desconfiança fundamental contra qualquer autoridade que seja puramente terrena e, contudo, a nossa natureza humana sofre do incurável desejo de alguma autoridade. Queremos mestres que realmente nos ensinem, chefes que nos dêem ordens e proibições, queremos alguém acima de nós, de quem dependamos e a quem admiremos, – e a quem possamos amar.



Mesmo na minha adolescência não me foi preciso muita acuidade mental para descobrir este fato, conquanto então a fome mun­dial de autoridade ainda não houvesse assu­mido o aspecto patológico que desde então assumiu. Surge assim a pergunta: – deseja­mos a Autoridade por termos sido criados para nos inclinarmos perante uma Autorida­de, a qual, ela só, possue direito legítimo sobre nós, o direito de um Auctor Vitae?



“Pense por si mesma”, diziam constantemente às crianças na escola que eu frequentava. Porém, quando eu seguia tal conselho a meu modo, e minha maneira de ver resul­tava em algo diferente daquilo que os pro­fessores pretendiam que eu pensasse, logo notava que ficavam desagradavelmente sur­presos. Nada descobriam em meu desacordo com eles além do desejo de oposição, malícia, ou que me deixara influenciar por gente boçal, ignorante ou mentirosa, que não cria e pensava como os meus mestres. A diretora da escola era um dos expoentes dos Direitos da Mulher em nossa terra, e o espírito da escola era pronunciadamente “esquerdista” desde o fim do século passado. “Liberdade, Progresso, Luz” – tal era o mote; Wergeland e Bjornson eram-lhe os santos padroeiros.



Tive e tenho grande simpatia por muita gente que encontrou nessa tendência um objetivo para o seu idealismo: o desejo de servir à pátria, ao sexo, a determinada classe ou à humanidade em geral. Descobri, contu­do, muito antes de me tornar adulta, que a gente que se diz de mentalidade liberal ou radical, ou em dia com a nossa época, é, com frequência, extremamente fanática. Ser fa­nático não consiste em estar um homem con­vencido de que a sua crença é verdadeira e a de outrem errada, porém em ter muito pouca inteligência e imaginação para poder perce­ber que os outros que discordam dele o pos­sam fazer de boa fé e com absoluta hones­tidade.



Certo havia boa dose de fanatismo nos círculos conservadores daquele tempo. Em meus dias de mocidade o conservador apa­recia-me como um indivíduo de raça dife­rente. Aqueles com os quais me encontrei mais tarde, durante os anos de trabalho em escritório, por exemplo, não me despertaram nenhum interesse real em conhecê-los me­lhor. Tinha a impressão de serem almas con­formadas e pouco fanáticas.



O primeiro que me proporcionou uma visão mais clara do ponto de vista conserva­dor da vida naquela época foi, de passagem, o ministro que me crismou. Recebi a impressão de que, em todo caso, naquela con­gregação, Deus não exigia nada mais (pelo menos das moças) a não ser virtudes essen­cialmente negativas, que provassem ser de utilidade. Aborreceu-me especialmente quan­do tratou diante de nós a respeito do sexto mandamento. Dirigiu seus conselhos às mo­ças da escola pública. Preveniu-as contra o aceitarem convites para festinhas, contra os homens que as podem namorar em suas tar­des de folga, e narrou-lhes a tocante história de uma mocinha que ele visitara em um hospi­tal, onde jazia devido a um “único beijo”. Aquilo chocou-me, e eu pensei: “Na verdade, a rapariga não cometeu um ato tão peca­minoso. Ao contrário, a culpa foi do homem”. Eu bem sabia que senhoras do nosso meio eram não raro culpadas de coisas muito mais imorais do que o mau passo dado por aquela pobre criada. Vieram-me à lembrança a in­fração dos votos matrimoniais, a corrida em­pós de homens considerados como bons parti­dos, fossem ou não escrupulosos em negócios ou mal-intencionados. Que a virgindade pos­sua um valor positivo, que possa ser uma fonte de energia e não apenas um ativo ne­gociável no mercado matrimonial, dificil­mente se poderia esperar que um ministro daquele meio intelectual no-lo dissesse. Con­siderava-se uma espécie de infortúnio, ou motivo para pilhéria, tornar-se a mulher uma solteirona. Eu lera o que Lutero escreveu sobre a virgindade e aquilo me tornara anti­-luterana. Muitas coisas aprendera eu frequentando a escola de Ragna Nielsen!



Naquele tempo, contudo, eu não duvi­dava de que o ministro nos falasse de boa fé e que realmente estivesse pronto a sofrer e a fazer sacrifícios pela sua desagradável idéia de Deus. Por outro lado eu não estava dis­posta a aceitar a sua versão do cristianismo como mais autêntica do que outras em que confiara. Suas instruções sobre a confirmação mostraram-me claramente que eu não cria na religião com a qual, em minha infância e juventude, sonhara ter uma ligação distante e vaga. Fora uma desgraça que no protestan­tismo que eu aprendera a conhecer quase todas as pessoas com inclinação religiosa tivessem também suas convicções pessoais ou sua própria e independente concepção do cristianismo.



O Deus que nos era apresentado pelos nossos mestres escolares de religião era mais aceitável que o deus Uranienborg. Era hu­mano – genuinamente humano – porém não mais humano que a mais nobre humanidade que eu pudesse imaginar. Era sábio, porém de sabedoria não superior à compreensão humana. Semelhantemente a muitas outras jo­vens educadas em um ambiente livre-pensa­dor, eu tinha a impressão de que a fé de cada um era um assunto pessoal, senão puramente um assunto de gosto. Eu tambem tinha a minha própria crença, conquanto não visse a menor necessidade de um Deus caso a Sua existência tivesse por finalidade exclusiva convir com as minhas idéias de verdade e erro, de honra e deshonra, e aprovar meus ideais e minhas condenações. Desde que estes, concluia eu, têm que estar de acordo com a minha natureza e a minha educação, sinto que poderia sustentá-los sem construir um Deus que deveria concordar comigo.



Um Deus que fosse como exatamente o Oposto (den Absolutt Andre) e, ao mesmo tempo, que pudesse comunicar-se comigo; cujos caminhos não fossem os meus caminhos, cuja vontade – absoluta e distinta – pu­desse distinguir-se da minha vontade, porém que pudesse guiar-me, ao mesmo tempo, pelos seus caminhos e afinar o meu querer em harmonia com o seu querer – este Ser eu ainda não ousava imaginar.



Aqueles que nos falavam em nome do cristianismo empregavam o nome divino apenas para justificar os próprios processos de pensar e os próprios ideais. Grande número deles havia abandonado o cristianismo histó­rico como algo insustentável, conquanto – devido a uma atitude de espírito pura­mente sentimental – mão pudessem abando­nar um ponto de vista colorido pelo cristianismo. Haviam abandonado a fé em Jesus Cristo como Deus e Homem, porém conti­nuavam adorando Jesus, o Filho do carpinteiro, como um homem ideal, um ideal hu­mano. Dogma, verdade, revelados de “além” e formulados em linguagem humana, nisto não podiam crer, porém criam na intuição religiosa e no gênio religioso da humanidade.



Não me inclinava, em absoluto, para a adoração do Homem, nem podia acreditar na intuição de outrem, especialmente de Alguém que dissera de Si próprio: “Aprendei de mim, que sou manso é humilde de coração” e que, não obstante, usara ao mesmo tempo de uma tal linguagem contra os seus antago­nistas que o mínimo que se poderia dela dizer é que era arrogante – caso quem assim agira não fosse mais do que um simples gênio hu­mano. Parti do ponto (que considerei como provado sem examinar a evidência) de que o Jesus histórico era um gênio religioso cuja instituição levara o Deus-Idéia da humanida­de muitos passos à frente no caminho do desenvolvimento. Para todos nós “desenvolvi­mento” era sinônimo de “aperfeiçoamento”, se prestávamos ao assunto qualquer atenção. Não via que interesse podia ter para mim que um jovem judeu, há mil e novecentos anos, andasse a afirmar ao povo que os pecados deste estavam perdoados, principalmente quando Ele dissera de si próprio: “Qual de vós me convencerá de pecado?” Não pudera, portanto, ter conhecido por experiência pes­soal quanto dói a alguém ter cometido algu­ma coisa contra outrem, e que este alguém quereria por tudo neste mundo não ter feito, ou o que seja a agonia de se haver frustrado as melhores intenções de alguém por forma tão grave que o próprio perdão parece quase impossível. Eu sabia o que era lamentar a crueldade contra os outros, a covardia secreta, a indolência quando era esta imperdoá­vel. A vida, posso dizê-lo, de acordo com a minha humanística religião particular, não resultara em satisfação agradável para co­migo – a não ser que, e seria isto o mais la­mentável de tudo, eu me inclinasse a compa­rar-me com outros que aparentemente viviam de acordo com sistemas mais fáceis. Bem sabia eu que o meu conhecimento das suas vidas privadas era muito perfunctório para habilitar-me a julgá-los com exatidão, nem também, tanto quanto possa dizê-lo, tributa­vam eles qualquer apreço às minhas próprias idéias morais.



Si non est Deus, non est bonus. Eu não sabia, naquela época, que outros já haviam dito o mesmo há muito tempo, porém estava bastante familiarizado com a história para saber que o cristianismo histórico pregara um Jesus que podia perdoar todos os pecados a todos os homens por ser Deus e Criador, e porque todos os nossos pecados, contra nós mesmos ou contra o próximo, são antes de tudo pecados contra Ele. Ele pode perdoar os pecados porque todo o poder Lhe é dado no Céu e sobre a terra, mesmo o poder de transformar nossas transgressões contra os outros em alguma coisa de bom. Tal era o Cristo que santo Olavo pregara aos homens que vieram e se ofereceram para crer na per­sonalidade cativante do próprio Rei. “Se crêm em mim, devem ter fé naquilo que eu lhes ensino, devem crer que Jesus Cristo criou os céus, a terra e todos os homens”.



Todavia, foi a Vida de Jesus, de Renan, e uma porção de tentativas semelhantes para reduzir-se o Cristo ao puramente “Jesus his­tórico”, que primeiro me levaram a com­preender quão inacreditável era que um ho­mem, com a mínima semelhança com qual­quer desses fantasmas, pudesse ter inspira­do aos amigos que O sobreviverem qualquer coisa tão leal quanto as aventuras apostólicas na vida e na morte.



E ainda estava eu então longe de crer fosse o Cristo realmente Deus, revelado ao mundo humano, e fosse a Igreja o organismo, no qual permanecia Ele para continuar o tra­balho de salvação que terminará sobre a Cruz, coincidente com a nova geração. Mas o que eu aprendera antes até um certo ponto, e que via agora com mais clareza, era o fato de que os novos sistemas religiosos, construi­dos quer sobre bases ateistas ou sobre a hu­manidade com alguma espécie de deismo, não eram em absoluto mais cientificamente esta­belecidos do que as velhas religiões. Pelo contrário, e até mesmo em grau maior, eram edificados sobre hipóteses e arbítrio.



Muitas das acusações que, sem criticar, deixara eu que entrassem por um dos ouvi­dos, mas desgraçadamente não permitira que saissem pelo outro, eram na realidade acusa­ções ocas ou especulações sugeridas por circunstâncias ocasionais ou locais. Por exem­plo, nem sei quantas vezes ouvira dizer que Deus era apenas resultante do desejo apaixo­nado do coração humano e que, em particular, a crença na existência do além-túmulo era ditada pela desabrida avidez por uma porção de vida maior do que aquela que a Natureza distribuira a cada um de nós. Compreendo agora que a primeira acusação era uma es­pécie de espada de dois gumes. Dificilmente se acreditaria que a maior parte dos livres-­pensadores de meu conhecimento desejasse de verdade um Deus que os deixasse propo­rem enquanto Ele dispunha. Exatamente ao contrário, a maioria deles sofria de Teofobia! Meu caso, sabia-o eu, era o caso comum. Sabia, outrossim, que o povo acredita no além-túmulo, porém raramente como sendo este uma forma agradável de existência – seus pensamentos giram em torno de Hades e do inferno. Aceita-o como um fato a que não pode fugir. Eu nunca pude imagi­nar uma forma de vida eterna que não fosse espantosa pela duração. Todas as coisas deste mundo, no fim de contas, tiram seu encanto de sabermos que não as gozaremos por muito tempo. O milagre das estações penetra-nos até a medula dos ossos, pois sabemos que cedo ou tarde chegará uma primavera que não ve­remos, um ano em que a primeira nevada cairá sobre um montículo sob o qual jazere­mos. E mesmo aqueles a quem mais amamos – poderíamos amá-los tanto se não tivésse­mos a certeza de que a morte os arrebatará de nós, caso a vida já o não haja feito?



Era a velha história – eu rejeitara as crenças e descrenças dos outros porque estavam cheias das próprias idiosincrasias deles; porém agora compreendia que o meu próprio modo de ver apresentava a mesma fraqueza. Certo, podia continuar acreditando em “mi­nha própria força e poder”, bem sabendo quão pouco neles podia confiar. Outros, em tempos de antanho, haviam procurado romper pela vida com uma fé igualmente escassa, porém não apregoavam que fosse ela mais do que um instrumento para abrirem caminho através dá breve existência aqui na terra. Em todo caso não foram sentimentais a este res­peito nem encheram a boca de palavras quanto a fraternidade na ação ou amor a luta.



De minha parte, não podia fugir ao sen­timento de que todo aquele que se isola dessa forma é um traidor, conquanto não pudesse precisar qual a traição e a quem eu traia. Cria na fraternidade entre os homens, se bem que não pudesse dizer que acreditava na per­fectibilidade humana. Cria simplesmente na estupidez e na inteligência do homem, na sua coragem e na sua fraqueza, e na instável na­tureza individual. Entre aqueles com quem me encontrara, confiava mais em poucos do que na maioria. Sentia, não obstante, que se fosse verdade, como dissera em meu lar de criança uma moça do Exército da Salvação, que Deus ama os pecadores – quanto maior o pecador, mais Deus o ama –, também, de um ponto de vista humano, deve Ele amar ainda mais aqueles homens perfeitos que estão sem­pre em perigo de pecar, em seus espíritos e em seus pensamentos, e de modo ainda pior do que o comum dos homens maus e das mulhe­res péssimas.



A idéia de que todos os dotes e poderes humanos que tornam um indivíduo apto a ser professor, condutor de homens, pioneiro no mundo, devem torná-lo nocivo aos seus se­quazes, conciente ou inconcientemente, caso não se considere ele preso pela responsabili­dade pessoal a alguém que paira muito acima de todos os homens e que, na verdade, man­tém a humanidade em Sua mão – isto é que me explicava o cristianismo de um modo que, de qualquer forma, tinha consistência, pro­babilidade e racionabilidade acima de qual­quer outra tentativa para resolver o enigma da vida.



A fraternidade humana consiste em ser­mos todos co-herdeiros de uma falência, após a queda do homem. A perda em comum da capacidade em que poderíamos confiar para ultrapassarmos o ponto morto das nossas vir­tudes e dos nossos conhecimentos, concluia eu, torna impossível a qualquer homem di­rigir os seus semelhantes, a não ser para um caminho errado. Só uma intervenção sobre­natural poderá salvar-nos de nós mesmos. A Igreja cristã ensina ser o próprio Cristo esta intervenção. Deus, por permitir que Ele nascesse de uma mulher, uniu-se à nossa na­tureza, e por consentir em ser crucificado para nos remir do pecado preparou-nos o caminho para uma vida eterna. Não era o nosso destino a existência no Inferno ou no Hades, que os homens sempre consideraram com involuntário terror, mas a vida em e com Deus, a eterna bem-aventurança, que somos incapazes de conceber. Mesmo viven­do nossa vida aqui na terra, podemos experi­mentar um contato tão íntimo com o divino que compreendemos possa a vida ser feliz, mesmo eterna, desde que em Deus podemos incessantemente renovar a energia do nosso viver, naquela força de que dimana toda a vida no mundo.



Por fim cheguei ao ponto de verificar que não tinha nenhuma fé em Deus. Porém ainda menos acreditava na minha própria descrença. Os sinais que nos compelem, mal­grado nossa vontade, a aceitarmos o cristia­nismo como aceitamos, por exemplo, em bo­tâníca, a demonstração do parentesco (e mesmo aqui os fatos, cientificamente prova­dos são tantos quantos os em que os profes­sores acreditam) estavam fora de discussão. Do contrário, como poderia Cristo haver dito: “Aquele que crê e é batizado será salvo, mas o que tem fé não será condenado?” Certamente que isto não impede a um homem de usar a própria razão, mas, em última análise, é a sua vontade que faz a escolha. A ele cabe decidir se se isolará no inferno do seu próprio egotismo, ou se completamente se entregará a Deus e se libertará das limitações do amor próprio para subir às possibilidades eternas.



Nada mais me restava a fazer do que me dirigir a um padre e pedir-lhe que me en­sinasse tudo quanto realmente ensina a Igreja Católica. Que a Igreja Católica fosse idêntica à Igreja fundada por Cristo eu nunca duvi­dara. Para mim, o problema da autoridade da Igreja era unicamente o problema da auto­ridade de Cristo. Jamais entendera eu a his­tória da Reforma a não ser como a história de uma rebelião contra o cristianismo, con­quanto fosse uma rebelião de cristãos crentes – não raro subjetivamente piedosos – que esperavam fosse o verdadeiro cristianismo algo de mais condicente com os seus ideais cristãos subjetivos do que a realidade exis­tente, tal como a impressão de suas aparên­cias pode ser em um mundo onde o bem e o mal se misturam nas ímpias mãos humanas.



As objeções contra o catolicismo, que eu ouvira no passado, pouco me impressiona­ram. Ainda assim, eu recebera uma vaga idéia de que algo de verdade deveria haver nessas críticas, em vista da latidão e insistên­cia de tais histórias. Além disso, dois fatos em particular induzem os homens a nelas acreditarem. O primeiro, é a nossa pouca inclinação a abandonarmos nossas fantasias favoritas, das quais tememos que uma Igreja docente nos prive. Outro, é o escândalo cau­sado pelos maus católicos, em todas as épocas. Este último é o reverso negro da luminosa doutrina da comunhão dos santos.



Penso que seria mais fácil à gente de agora entender o que significa a doutrina do mérito dos santos, que implica um tesouro de riquezas das quais toda a Igreja pode be­neficiar-se, porque, em nossa época, não ape­nas os católicos, porém os cristãos de todas as seitas e matizes sofrem devido à culpa de cada um de nós perante Deus ou para com o próximo. Nenhuma união é tão absoluta quanto a união entre as células vivas do Cor­po Místico de Cristo.



A veneração prestada aos santos, desde o início preconizada pela Igreja, parece na verdade corresponder a uma necessidade in­coercivel da nossa natureza. Temos que pres­tar culto a heróis! Ao envez de outros melhores, transformamos em heróis reis e bandidos, artistas e homens de esporte, estrelas de cinema e ditadores. Temos que colocar alguém sobre um pedestal, para nesse alguém admirarmos algo de nós mesmos. Nos santos realizou-se o objetivo de Deus ao criar-nos, como dizem as palavras do Ofertório: “Que maravilhosamente formastes a natureza hu­mana e mais prodigiosamente a reformastes”. Somente nos santos podemos encontrar uma derivação para o nosso culto do herói, sem que ao mesmo tempo homenageemos a nossa própria natureza, que fora covardia ou de­gradação cultuar.



O culto de Maria? Sempre o considerei como um fato muito natural. Se acreditamos que Deus nos salvou por tomar a nossa carne e o nosso sangue, então por certo devemos olhar para Maria, em cujo seio o Seu corpo tomou forma, com sentimentos diferentes da­queles com que consideramos qualquer outro ser puramente humano, – sentimentos de profundo respeito, grande devoção e verda­deira simpatia, pelas indescritíveis provações do seu viver terreno, e de alegria pela sua in­compreensível altitude no Reino de Deus. Porque, se é verdade que o Filho de Maria é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, então é o Filho seu filho, e a Mãe é a mãe d’Ele, por toda a eternidade, conquanto seja Ele o criador e ela sua criatura. Que a palavra adoração (1) signifique o culto ao Criador, e a palavra veneração o culto Aquela por Ele formada com a beleza das flores deste mun­do que Ele criou – nenhum católico o deixa de entender.

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(1) Em inglês a palavra "worship" significa adorar ou venerar. A dupla acepção da palavra adorar não existe em português. Dal a impossibili­dade de traduzir literalmente as palavras da autora. (N. T.)

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Restrição de consciência ou liberdade de consciência? Mas as próprias pessoas que mais prezam a liberdade de consciência seriam as mesmas que, penso eu, lucrariam imensamente mais se as suas consciências fossem dirigidas por mão firme. Por exemplo, quan­do tomam liberdades com respeito ao bom nome e à reputação do próximo, coisa que nem em meus dias de mais negro paganismo a minha consciência jamais permitiu. Ignorava se isto era devido só a minha consciência ou a minha consciência tal como meus pais a desenvolveram. Costumavam eles dizer que uma pessoa conhece tão pouco a respeito de outrem, que a coisa única que com certeza se pode dizer, ouvindo-se contar algum caso de alguém, que provavelmente não seja verdade. Os que se permitem mexericos devem ser uns frívolos fracos de espírito; e quando espalham difamações o fazem para dar vasão a lama que não raro aflige aos imbecis. Eu, porém, jamais cuidei de verificar se agem contra o conhecimento exato ou contra a pró­pria consciência. Em resumo, que é que o ho­mem já não fez contra o homem? E que di­reito tenho eu de pressupor que os outros agiram contra as próprias consciências? Quan­do confio tão pouco na consciência alheia como capaz de manter-lhe o trato sempre correto, deverei ter a presunção de acredi­tar que a minha própria consciência dispense, um guia externo?


Porque eu creio que Jesus Cristo é Ele próprio Deus, meu Criador, também creio que formou sua Igreja tal como o homem ne­cessita. O que Deus me deu por intermédio de sua Igreja é dificil de exprimir com pala­vras. Seus próprios lábios nos disseram que Ele nos concedeu sua paz, mas a sua paz não é aquela que nos dá o mundo. É uma paz diferente. Pode ser, talvez, comparada à paz reinante nos profundos abismos do oceano largo. Bom ou mau tempo à superfície não a altera, nem o embate de estranhos mons­tros que se entredevoram. A nossa experiên­cia prática é de que o reino de Deus está den­tro de nós, conquanto vivamos presos ao nosso eu inquieto, semi-ligados às realidades e às ilusões do mundo. Experimentamos, po­rém, que de um modo sobrenatural Deus está em nós e sem cessar sustenta contra os nossos ataques o seu reino dentro de nós.



Sigrid Undset - Romancista norueguesa e a terceira mulher a obter o prêmio Nobel em Literatura, nasceu em 1882 e converteu-se ao catolicismo em 1925.


Fonte: Retorno a Cristo II. Stella Editora. Rio de Janeiro: 1943. Págs. 19-36.

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