Publicado por Tht em 01/6/2008 (1744 leituras)
Dom Eugenio SalesHá pouco tempo, aqui mesmo, tratei da preservação ou restauração de um ambiente sagrado em nossos templos. Mostrei o significado do silêncio, mesmo fora dos atos religiosos. Percebi a oportunidade da matéria e de um trabalho educacional que facilite a observância dessas exigências nascidas de nossa fé cristã e, por isso, volto ao assunto sob outros ângulos.
Uma igreja ou capela deve proporcionar tranqüilidade. Em um mundo pleno de tensões, possui importância singular, ao favorecer um recolhimento interior e exterior. Cumpre criar um clima propício à prece, à reflexão, ao contato espiritual com o Senhor. A pessoa troca a agitação das ruas, as preocupações dos negócios, o trabalho esgotante e as angústias do dia-a-dia por outra realidade e valores diferentes. Tudo deve difundir paz, a começar pelo edifício. Há recursos arquitetônicos que possibilitam ao templo cumprir melhor suas funções, entre elas, o convite à oração.
Alguns gastos despendidos para diminuir a penetração do ruído externo ou amortecer o que é acrescido por defeitos de construção serão bem recompensados. A beleza na edificação, que pode ser obtida sem aumento de despesas, mas através da inteligência e do bom gosto, serve de veículo para transmitir mais facilmente a mensagem do Evangelho. Aliás, cabe também aos arquitetos estarem atentos à iluminação.
Outro fator importante para gerar uma atmosfera religiosa na assembléia é o comportamento da assistência. Estabelecer, de modo claro, uma linha divisória entre uma reunião, mesmo familiar, de outra, religiosa, na casa de Deus. Evidentemente, é diverso o modo de trajar, falar, locomover-se no templo do Senhor ou em uma residência, no local de trabalho, na praia ou no estádio. O simples bom senso impede qualquer confusão.
Nem sequer seria necessário apelar para as normas dadas pela autoridade eclesiástica. Infelizmente, um elementar nível educacional falta, algumas vezes, nessas oportunidades. A indumentária serve também para comunicar e transmitir conceitos.
Assim, pela veste branca, o batizado "vestiu-se de Cristo", na expressão de São Paulo (Gl 3,27). Trata-se de uma espécie de linguagem que nos ensina serem diferentes o sacerdote e o leigo na rua ou no interior do lugar sagrado. Como há muitos membros do laicato que exercem encargos como ministros extraordinários da comunhão eucarística, leitores, comentaristas e outros, devem usar uma roupa característica ou, ao menos, conveniente em uma ação litúrgica. O respeito devido a Deus e também aos participantes do ato religioso, exige de quem vai proclamar a Palavra de Deus, dirigir as Preces da Comunidade, tomar parte na procissão do ofertório e, de modo particular, distribuir – na ausência de padres e diáconos em número suficiente – a Sagrada Eucaristia, uma apresentação condigna, em conformidade com as normas diocesanas. Pode ser muito pobre a veste, mas sempre é a melhor que se possui e que serve para significar o respeito devido ao interlocutor ou aos circunstantes.
São Paulo, após enumerar as obras da carne, acrescenta: "Os que tais coisas praticam, não herdarão o Reino de Deus". E cita entre as obras boas, fruto do Espírito, a modéstia (Gl 5,22). Escrevendo a Timóteo, na 1ª Epístola (2,9-11), o Apóstolo recomenda: "Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia (...) como convém a mulheres que se professam piedosas". Paulo assim se expressa para defender a intocável dignidade, revelada com autoridade divina e protegida, desde os primeiros tempos, pelos costumes vigentes.
Hoje em dia, infelizmente, é possível verificar problemas de decência, nas igrejas, também em relação aos homens, sobretudo em igrejas próximas à praia. O sexo feminino tem sua maneira específica de ser imagem de Deus. Os costumes variam, segundo as culturas, mas permanece inalterada a natureza do ser humano criado por Deus. Corpo e alma formam uma unidade. Acima do instinto de reprodução, está a dignidade da pessoa humana. Essas afirmativas brotam do Evangelho e se opõem à mentalidade reinante. E o Catecismo da Igreja Católica (nº 2522) nos ensina: "O pudor é modéstia. Inspira o modo de vestir".
Quantas vezes, pessoas se aproximam dos sacramentos usando vestes não apenas inadequadas ao momento, mas contrárias aos princípios evangélicos! Desobedecem às normas da Igreja.
Essas considerações merecem atenção também dos que são meros visitantes.
Por falta de sensibilidade, esquecimento das mais elementares prescrições da boa convivência, ocorrem fatos desabonadores. O templo difere de um local para reunião social, palestras ou conversações. A apresentação corporal deve estar de acordo com o local e as exigências de uma educação cristã.
Dois fatores influenciam negativamente nessa matéria, em particular nos tempos atuais. O turismo movimenta multidões. Grupos, no mesmo programa, são levados a festas profanas mas desejam também visitar igrejas e participar de atos, com a mesma indumentária, o que é um erro. O outro é o avanço da falta de pudicícia, o crescimento da imoralidade. As consciências são cauterizadas por uma opinião pública adversa aos princípios cristãos, com conseqüências no interior das igrejas.
Em vez de se esperar uma reação do sacerdote, muito mais eficaz é dispor interiormente a seguir a disciplina e o bom senso. A atuação dos pais junto aos filhos é um dever. A advertência fraterna dos amigos, uma valiosa colaboração.
O esforço em respeitar essas normas nas igrejas, especialmente em funções religiosas, aperfeiçoa a vida espiritual, é valiosa contribuição à dignidade do culto divino.
Cardeal Dom Eugenio Sales é Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Fonte: JB Online
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