Publicado por Tht em 03/10/2008 (2520 leituras)
Miriam Díez i Bosch
(ZENIT.org)
O discurso de Bento XVI, que tanta agitação causou em Ratisbona há 2 anos, vinha sobretudo recordar de modo paradoxal uma constante: a importância da razão – junto com o amor – no cristianismo.
Assim explica o sacerdote Blanco Sarto, que é teólogo da Universidade de Navarra, especialista no pensamento do Papa alemão, criador e coordenador de http://www.unav.es/tdogmatica/ratzinger/, o Foro de Estudo Ratzinger que propõe fontes para conhecer melhor o pontífice a partir da ótica teológica.
Aquele mal-entendido discurso, sustenta Blanco, foi considerado por parte de alguns como uma resposta ao atentado contra as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Foi justamente cinco anos depois. Em 12 de setembro de 2006, Bento XVI pronunciava seu discurso na sala magna da universidade de Ratisbona, a cidade do Danúbio.
O Papa havia lecionado lá nos anos 70, os anos da revolta estudantil. «Há quem viu em uma citação do discurso um ataque irrefutável ao islã e houve algumas tristes respostas violentas. Contudo, era sobretudo um discurso dirigido a um público alemão», insiste o professor de teologia em Navarra.
O cardeal Karl Lehmann, então presidente da conferência episcopal alemã, declarou imediatamente que o tema tratado não era o islã, mas a razão. «Essas linhas falavam – se forem bem lidas – de paz, razão e diálogo, e não tanto de cruzada, guerra santa e choque de civilizações», afirma Blanco.
«A racionalidade é um princípio que a religião cristã compartilha com o Iluminismo e a modernidade há muito tempo», indica o jovem teólogo, que escreveu vários livros sobre Joseph Ratzinger.
O tema transcendeu, contudo, as fronteiras européias e ocidentais. O conhecido filósofo Jürgen Habermas denunciou, em março de 2007, no Neue Zürcher Zeitung, o tom «anti-moderno» que considerava ver no discurso de Ratisbona.
«É certo que este epígono do marxismo havia demonstrado aproximação da religião em um encontro com o então cardeal Ratzinger em Munique em janeiro de 2004, a propósito precisamente do atentado contra as Torres Gêmeas, evoca Blanco. Razão e religião – concluíram ambos – podiam libertar-se mutuamente das respectivas patologias.»
«Para Habermas, contudo, agora a ‘razão secular’ e a ‘razão teológica’ poderão ter só uma aproximação, um encontro mais casual e não demasiadamente profundo», sublinhou o teólogo.
Segundo Habermas, «na religião havia algo opaco para a razão». Entre razão e religião pode haver certa colaboração, mas «nunca alcançarão uma mesma verdade», argumentaria Habermas: podem construir uma ponte comum desde distintas ribeiras, mas nunca percorrer um mesmo caminho.
Pablo Blanco explicou à Zenit que esta proposta era uma maneira de propor o velho Iluminismo: «A razão deve manter-se longe da religião». Contudo, alguns meses depois, em março deste ano, em Roma, Habermas afirmava que a tradição leiga «poderia aprender com a razão secular a tomar consciência de sua relação genealógica com a herança judaico-cristã».
Aquilo foi tomado por alguns como um ataque ao laicismo. Habermas insistiu em que «em um mundo pós-secular não podemos atuar tão facilmente como se Deus não existisse».
A proposta do Papa alemão no histórico discurso ia nessa mesma linha, e é o que Joseph Ratzinger sustentou – apelando a Blaise Pascal – há algum tempo, nesse caso frente a Marcello Pêra, agnóstico filósofo da ciência e antigo presidente do senado italiano.
Pablo Blanco, neste balanço, dois anos depois de Ratisbona, explicita que «o cristianismo quis aliar-se desde os primeiros momentos com a ciência, a filosofia e o pensamento».
«Teria sido mais simples aliar-se com um fundo mítico e simbólico – por exemplo – das religiões orientais. Contudo, a religião cristã apostou pelo mais difícil: confrontar-se com a razão e a filosofia pagã, com o pensamento grego, com a ‘razão secular’», ilustra.
Os primeiros pensadores cristãos – como Justino, Irineu ou Agostinho – viram que cabe um entendimento mais profundo entre razão e religião.
«O Papa Ratzinger recordou esta comprometida aposta por parte do primeiro cristianismo a favor da razão, apesar de que alguns a consideravam então como sua pior inimiga», reflete Blanco.
«Combatia-se o cristianismo também nos foros e nas salas de aula. Mas os intelectuais cristãos souberam se defender com fé e com razão. Foi este um primeiro Iluminismo do cristianismo, muito antes daquele do século XVIII», explica.
O segundo Iluminismo foi o da modernidade: o de Kant, Rousseau, Voltaire e outros. Para Blanco, «não foi este, contudo, um Iluminismo muito cristão». Porém, o Papa atual não hesitou em repetir – por considerá-lo cristão – o refrão kantiano sapere aude: «atreva-se a saber».
O Papa sugeriu também que «esta vitória da razão não deve ser algo exclusivo do cristianismo», observa Blanco: «A verdade tem direito de cidadania em todas as religiões, em todas as culturas e em todos os campos do saber».
«A pós-modernidade nos fez notar que os sonhos da razão moderna – uma razão sem religião – produziram também monstros. Auschwitz, Hiroshima, Chernobyl seriam apenas alguns nomes de certos infelizes experimentos. E a religião pode e deve dizer algo a respeito disso», reivindica.
«No islã houve também respostas positivas a esta proposta de diálogo entre razão e religião. Nem tudo é fundamentalismo, é claro», declara.
«A razão libertou a religião de alguns erros, uma vez que esta podia oferecer também interessantes pistas e curar a razão de seus próprios excessos e patologias. O Papa em Ratisbona afirmou que é necessária uma nova razão, mais aberta, uma razão ampliada», recorda Blanco.
«Esta proposta de Bento XVI não constituía um ato pré ou antimoderno, mas sim pós-moderno, no sentido mais pleno da expressão», defende.
«Trata-se de fazer alcançar uma nova síntese da modernidade com as melhores contribuições do cristianismo», diz Blanco, depois do Papa reiterar esta idéia em sua viagem apostólica à França.
Trataria-se de «uma razão aberta não só ao mundo da arte e dos sentimentos, mas também ao imenso panorama das religiões, em especial da fé cristã. Trata-se de um novo encontro entre razão e religião, que se converterá no bem de ambos».
«Uma nova síntese entre fé e razão que dê lugar a um Iluminismo pós-moderno. Este não é, portanto, um ato de nostalgia, mas um audaz olhar dirigido ao futuro», assevera.
Blanco alerta que «esta reivindicação da razão e da verdade pode nos libertar de tiranias e fundamentalismos, ainda ativos e ameaçadores».
«Tal é a aposta que Bento XVI fazia a uma modernidade um pouco vencida e a esta pós-modernidade agora já um pouco menos enfática.»
Segundo sustenta o teólogo Blanco, «a paz, a dignidade humana e o meio ambiente estão ameaçados na atualidade, e uma razão aliada às religiões poderia nos livrar de uma possível catástrofe».
«Só a verdade nos torna livres, e só com a razão pode-se alcançar a paz e o respeito à natureza e à dignidade da pessoa. O debate continua aberto», portanto.
Algumas religiões assumiram o desafio e é então quando o verdadeiro diálogo poderá ser levado a cabo. Também parte da ciência se propôs a isso. «Só precisamos de uma nova razão, que inclua e acolha as religiões», aponta Blanco, dois anos depois de Ratisbona.
(ZENIT.org)
O discurso de Bento XVI, que tanta agitação causou em Ratisbona há 2 anos, vinha sobretudo recordar de modo paradoxal uma constante: a importância da razão – junto com o amor – no cristianismo.
Assim explica o sacerdote Blanco Sarto, que é teólogo da Universidade de Navarra, especialista no pensamento do Papa alemão, criador e coordenador de http://www.unav.es/tdogmatica/ratzinger/, o Foro de Estudo Ratzinger que propõe fontes para conhecer melhor o pontífice a partir da ótica teológica.
Aquele mal-entendido discurso, sustenta Blanco, foi considerado por parte de alguns como uma resposta ao atentado contra as Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Foi justamente cinco anos depois. Em 12 de setembro de 2006, Bento XVI pronunciava seu discurso na sala magna da universidade de Ratisbona, a cidade do Danúbio.
O Papa havia lecionado lá nos anos 70, os anos da revolta estudantil. «Há quem viu em uma citação do discurso um ataque irrefutável ao islã e houve algumas tristes respostas violentas. Contudo, era sobretudo um discurso dirigido a um público alemão», insiste o professor de teologia em Navarra.
O cardeal Karl Lehmann, então presidente da conferência episcopal alemã, declarou imediatamente que o tema tratado não era o islã, mas a razão. «Essas linhas falavam – se forem bem lidas – de paz, razão e diálogo, e não tanto de cruzada, guerra santa e choque de civilizações», afirma Blanco.
«A racionalidade é um princípio que a religião cristã compartilha com o Iluminismo e a modernidade há muito tempo», indica o jovem teólogo, que escreveu vários livros sobre Joseph Ratzinger.
O tema transcendeu, contudo, as fronteiras européias e ocidentais. O conhecido filósofo Jürgen Habermas denunciou, em março de 2007, no Neue Zürcher Zeitung, o tom «anti-moderno» que considerava ver no discurso de Ratisbona.
«É certo que este epígono do marxismo havia demonstrado aproximação da religião em um encontro com o então cardeal Ratzinger em Munique em janeiro de 2004, a propósito precisamente do atentado contra as Torres Gêmeas, evoca Blanco. Razão e religião – concluíram ambos – podiam libertar-se mutuamente das respectivas patologias.»
«Para Habermas, contudo, agora a ‘razão secular’ e a ‘razão teológica’ poderão ter só uma aproximação, um encontro mais casual e não demasiadamente profundo», sublinhou o teólogo.
Segundo Habermas, «na religião havia algo opaco para a razão». Entre razão e religião pode haver certa colaboração, mas «nunca alcançarão uma mesma verdade», argumentaria Habermas: podem construir uma ponte comum desde distintas ribeiras, mas nunca percorrer um mesmo caminho.
Pablo Blanco explicou à Zenit que esta proposta era uma maneira de propor o velho Iluminismo: «A razão deve manter-se longe da religião». Contudo, alguns meses depois, em março deste ano, em Roma, Habermas afirmava que a tradição leiga «poderia aprender com a razão secular a tomar consciência de sua relação genealógica com a herança judaico-cristã».
Aquilo foi tomado por alguns como um ataque ao laicismo. Habermas insistiu em que «em um mundo pós-secular não podemos atuar tão facilmente como se Deus não existisse».
A proposta do Papa alemão no histórico discurso ia nessa mesma linha, e é o que Joseph Ratzinger sustentou – apelando a Blaise Pascal – há algum tempo, nesse caso frente a Marcello Pêra, agnóstico filósofo da ciência e antigo presidente do senado italiano.
Pablo Blanco, neste balanço, dois anos depois de Ratisbona, explicita que «o cristianismo quis aliar-se desde os primeiros momentos com a ciência, a filosofia e o pensamento».
«Teria sido mais simples aliar-se com um fundo mítico e simbólico – por exemplo – das religiões orientais. Contudo, a religião cristã apostou pelo mais difícil: confrontar-se com a razão e a filosofia pagã, com o pensamento grego, com a ‘razão secular’», ilustra.
Os primeiros pensadores cristãos – como Justino, Irineu ou Agostinho – viram que cabe um entendimento mais profundo entre razão e religião.
«O Papa Ratzinger recordou esta comprometida aposta por parte do primeiro cristianismo a favor da razão, apesar de que alguns a consideravam então como sua pior inimiga», reflete Blanco.
«Combatia-se o cristianismo também nos foros e nas salas de aula. Mas os intelectuais cristãos souberam se defender com fé e com razão. Foi este um primeiro Iluminismo do cristianismo, muito antes daquele do século XVIII», explica.
O segundo Iluminismo foi o da modernidade: o de Kant, Rousseau, Voltaire e outros. Para Blanco, «não foi este, contudo, um Iluminismo muito cristão». Porém, o Papa atual não hesitou em repetir – por considerá-lo cristão – o refrão kantiano sapere aude: «atreva-se a saber».
O Papa sugeriu também que «esta vitória da razão não deve ser algo exclusivo do cristianismo», observa Blanco: «A verdade tem direito de cidadania em todas as religiões, em todas as culturas e em todos os campos do saber».
«A pós-modernidade nos fez notar que os sonhos da razão moderna – uma razão sem religião – produziram também monstros. Auschwitz, Hiroshima, Chernobyl seriam apenas alguns nomes de certos infelizes experimentos. E a religião pode e deve dizer algo a respeito disso», reivindica.
«No islã houve também respostas positivas a esta proposta de diálogo entre razão e religião. Nem tudo é fundamentalismo, é claro», declara.
«A razão libertou a religião de alguns erros, uma vez que esta podia oferecer também interessantes pistas e curar a razão de seus próprios excessos e patologias. O Papa em Ratisbona afirmou que é necessária uma nova razão, mais aberta, uma razão ampliada», recorda Blanco.
«Esta proposta de Bento XVI não constituía um ato pré ou antimoderno, mas sim pós-moderno, no sentido mais pleno da expressão», defende.
«Trata-se de fazer alcançar uma nova síntese da modernidade com as melhores contribuições do cristianismo», diz Blanco, depois do Papa reiterar esta idéia em sua viagem apostólica à França.
Trataria-se de «uma razão aberta não só ao mundo da arte e dos sentimentos, mas também ao imenso panorama das religiões, em especial da fé cristã. Trata-se de um novo encontro entre razão e religião, que se converterá no bem de ambos».
«Uma nova síntese entre fé e razão que dê lugar a um Iluminismo pós-moderno. Este não é, portanto, um ato de nostalgia, mas um audaz olhar dirigido ao futuro», assevera.
Blanco alerta que «esta reivindicação da razão e da verdade pode nos libertar de tiranias e fundamentalismos, ainda ativos e ameaçadores».
«Tal é a aposta que Bento XVI fazia a uma modernidade um pouco vencida e a esta pós-modernidade agora já um pouco menos enfática.»
Segundo sustenta o teólogo Blanco, «a paz, a dignidade humana e o meio ambiente estão ameaçados na atualidade, e uma razão aliada às religiões poderia nos livrar de uma possível catástrofe».
«Só a verdade nos torna livres, e só com a razão pode-se alcançar a paz e o respeito à natureza e à dignidade da pessoa. O debate continua aberto», portanto.
Algumas religiões assumiram o desafio e é então quando o verdadeiro diálogo poderá ser levado a cabo. Também parte da ciência se propôs a isso. «Só precisamos de uma nova razão, que inclua e acolha as religiões», aponta Blanco, dois anos depois de Ratisbona.
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