Publicado por Tht em 03/1/2009 (1569 leituras)
Dom Eugenio SalesArcebispo Emérito do Rio de Janeiro
A exortação apostólica Evangelii nuntiandi, sobre a "evangelização" do mundo contemporâneo se inclui entre os mais importantes documentos do papa Paulo VI, datado de 8 de dezembro de 1975.
Em seu número 41, ele trata da necessidade do exemplo como um válido e indispensável instrumento na difusão da fé em nossa época.
Há uma real exigência de autenticidade particularmente no tempo de hoje. Diz o santo padre: "O testemunho de uma vida verdadeiramente cristã, entregue às mãos de Deus, é o primeiro meio de evangelização. Será, pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este mundo". E no nº 76 volta a insistir como "condição essencial para eficácia profunda da pregação", uma vida que reflita uma crença. Ouve-se repetir com freqüência, hoje em dia, que esse nosso século tem sede de autenticidade.
Esse ensinamento me vem à mente quando vejo lares, apresentados como modelares, que se desfazem; padres que realmente viviam um sacerdócio símbolo de consagração total, abandonarem-no. Em outras palavras, o escândalo vindo de onde não se esperava.
Na verdade, a Igreja é santa e pecadora. O que possui de bom tem origem no Cristo, seu fundador. As falhas, as deficiências, a desordem moral em seu interior, provêm de sua condição também humana.
Essas sombras não devem causar admiração. Elas tiveram início ainda presente o Mestre e serão companheiras inseparáveis de nossa fragilidade até o final dos tempos. Quando surgem no clero são, por isso, mais graves. Ao se manifestarem nos leigos, seu efeito demolidor pode ser aquilatado pela posição de evidência que eles gozavam como membros da comunidade cristã.
A Sagrada Escritura nos fala dos cedros do Líbano que desabam. Destróem muito mais, em derredor, com a sua queda; pois eram considerados mais fortes.
A reação humana contra essas fraquezas é justa, pois jamais falta a graça de Deus nas dificuldades. Assim, cada um responde pelo mal que provoca, pois abusou da liberdade que possuía. A satisfação pessoal pesou mais no prato da balança que os sofrimentos provocados em pa rentes, amigos, no corpo vivo do Senhor.
Injusto, entretanto, é atribuir esses desastres à própria Instituição ou duvidar da sinceridade dos que lutam por seguir o Redentor.
Somente os fracos se alegram com a derrota de outrem, vendo nisso uma oportunidade para justificar as próprias falhas. A verdade é que eles carecem de coragem para apresentar-se conforme as exigências do Evangelho, e tentam justificar-se com um lamentável fracasso. Aproveitam esses casos dolorosos para lançar o descrédito na multidão que permanece firme e fiel. Eles também jogam sua pedra, em forma de interpretações malévolas sobre a sinceridade de atitudes anteriores desses nossos irmãos que malograram. Por uma falta atual, não temos o direito de duvidar de sua integridade e retidão no serviço de Deus até o abandonarem, desfazendo compromissos assumidos com a Igreja.
Em uma sociedade permissiva vai às raias do heroísmo uma tomada de posição conforme a moral cristã. Um convite que se recusa, uma visita que se nega, um gesto que se mede para não ser por outros interpretado como aceitação do mal. Tudo isto exige uma têmpera que hoje escasseia. Por isso se pode perguntar, a muitos que se proclamam católicos, se realmente fi- zeram verdadeira opção por sua fé. Ela, se autêntica, repercute na própria vida e também no relacionamento social.
Somente uma firmeza, erroneamente confundida com dureza, nos faz evitar atitudes antievangélicas, motivadas por razões humanas.
Viver o Evangelho não é fácil. Daí o perigo de um falso entusiasmo pelo Salvador sem igual correspondência de sentimentos por esta Igreja concreta, única onde subsiste um Cristo real e salvífico. Ela possui diretrizes e normas que deverão ser incorporadas à nossa vida. Não nos esqueçamos que a felicidade que o Senhor nos veio trazer é fundamentalmente diversa da qual uma sociedade paganizada nos propõe. Os princípios expostos no Sermão da Montanha contradizem o que ouvimos no dia a dia.
Hoje uma opção se impõe para que possa ser utilizado o nome de cristão com dignidade. Esse testemunho de autenticidade é importante fator de eficácia em uma ação evangelizadora no mundo contemporâneo.
"A força da evangelização virá a encontrar-se muito diminuída se aqueles que anunciam o Evangelho estiverem divididos entre si, por toda a espécie de rupturas. Não residirá nisso uma das grandes adversidades da evangelização nos dias de hoje? Na realidade, se o Evangelho que nós apregoamos se apresenta vulnerado por querelas doutrinais, polarizações ideológicas, ou condenações recíprocas entre cristãos, ao capricho das suas maneiras de ver diferentes acerca de Cristo, da Igreja e mesmo por causa das suas concepções diversas da sociedade e das instituições humanas, como não haveriam aqueles a quem a nossa pregação se dirige vir a encontrar-se perturbados, desorientados, se não escandalizados?
O testamento espiritual do Senhor diz-nos que a unidade entre os fiéis que o seguem não somente é a prova de que nós somos seus, mas também a prova de que ele foi enviado pelo Pai, critério de credibilidade dos mesmos cristãos e do próprio Cristo.
Como evangelizadores, nós devemos apresentar aos fiéis de Cristo não já a imagem de homens divididos e separados por litígios que nada edificam, mas sim a imagem de pessoas amadurecidas na fé, capazes de se encontrar para além de tensões que se verifiquem, graças à procura comum, sincera e desinteressada da verdade. Sim, a sorte da evangelização anda, sem dúvida, ligada ao testemunho de unidade dado pela Igreja".
Fonte: JB
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