Publicado por Tht em 17/1/2009 (1269 leituras)
Dom Eugenio SalesArcebispo Emérito do Rio de Janeiro
“A mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Eis seu nome completo, segundo velhos registros civis e religiosos. A história do seu passado guarda a chave dos enigmas do presente. Aos tripulantes das caravelas afigurou-se-lhes a foz de um rio o que, na realidade, era uma baía. Para batizá-la, buscaram uma denominação no calendário litúrgico: 20 de janeiro, festa de São Sebastião. Há uma ilusão e uma piedosa intenção na origem do nome deste centro urbano onde vivemos.
Acorreram para cá intrusos, piratas, flibusteiros e corsários. Ela os expulsou. Relembremos seus anais na colônia, no reino, no império e na república. Nasceu e cresceu intimamente vinculada à Igreja.
E ela, incluindo-lhe os arredores, está, em nossos dias, entre as sete maiores cidades do mundo, conforme projeções de organismos internacionais.
Recebemos uma herança que transmitiremos aos pósteros. A estes, aos antepassados, um dia prestaremos contas de nossa administração diante de Deus. Recordemos que cada um – e não apenas os que nos governam – é parte integrante de um todo. E, em grau diverso, por ele responde.
Na festa do Padroeiro S. Sebastião, pelas razões que venho de lembrar, consideremos algumas agressões que hoje desfiguram o Rio e tornam difícil descobrir os traços originais de lealdade e heroísmo, componentes do próprio nome da sua fundação. Por conseguinte, é nosso dever restaurar a identidade da que é denominada “a mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”.
A primeira mancha é a crescente violência nas suas mais variadas modalidades. Ela deforma o Rio, ao roubar-lhe o espaço de liberdade indispensável ao convívio humano. A justiça social, fundamento da paz entre os indivíduos, é dura e cruelmente atingida, quando, entre os filhos do mesmo Pai, e com igual destinação eterna, 60% das famílias ganham menos de três salários mínimos e mais de um milhão e meio não possuem um lar digno desse nome. Além disso, entremeado aos barracos, a ostentação do luxo injuria uma visão cristã da convivência social. A exaltação do consumismo e o esbanjamento humilham ou fazem crescer os sofrimentos de estômagos vazios. Acresce a indução à esterilização de homens e mulheres e a distribuição de pílulas anticonceptivas aos pobres, assim como os preservativos.
A insegurança que gera o medo, o índice de criminalidade, os assaltos, inclusive perpetrados por menores, executados ostensivamente e até com requintes de crueldade; as máfias, também no interior de presídios; os tóxicos que estimulam e exigem em círculo vicioso o roubo, agridem nossa cidade.
A destruição do meio ambiente, a poluição do ar e vários outros fatores dificultam a vida humana em nosso meio urbano. O egoísmo, por natureza, busca o próprio conforto e vantagens pessoais em detrimento do próximo; ameaça um bem que pertence à coletividade e desfigura a face da metrópole.
A terceira agressão, que muitos parecem não querer ver, mas que é a raiz das duas primeiras: perdem-se os valores morais que constituem a única base sólida de uma sociedade. Essa constatação é o resultado de milenar experiência da Humanidade. Grupo humano algum sobrevive, sem reagir, à debilitação dos princípios básicos da dignidade da vida, indissolubilidade da Família, proteção à inocência, reconhecimento da nobreza do corpo, respeito ao alheio, aceitação de normas de um comportamento digno à fraternidade, o amor à Verdade.
E como fundamento desses males e a explicação de sua proliferação entre nós, avulta o enfraquecimento do autêntico sentimento religioso. Se ele não paira à superfície, eficazmente gera os antídotos a tais doenças que nos corroem. Para se alcançar esse objetivo urge passar de um sentimentalismo vazio ou convencional à vivência do Evangelho em profundidade.
Ao longo de toda nossa História – mais de 400 anos – atua uma presença plasmadora desse organismo social: a Igreja. Apesar das falhas humanas de seus filhos tem operado o Espírito de Deus. E ela pode apresentar larga folha de serviços, não acidentais, mas essenciais à preservação da nossa identidade.
A festa do Padroeiro nos faz refletir como “a mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro” é agredida, deformada. Ao mesmo tempo, mostra sua grandeza, ainda hoje existente que nos estimula os brios. Cumpre corrigir deficiências, fortalecer o que há de bom e lutar tenazmente por defender um patrimônio que recebemos e transmitiremos aos que nos sucederem.
Posso afirmar que bem conheço o Rio, pois fui Pastor durante 30 anos, e, assim, com alegria, constato a existência de insuspeitadas reservas espirituais e morais em nosso povo. Alimentado por uma Fé simples, em geral é firme sua adesão ao Mestre. A generosidade patenteada na Feira da Providência revela que zelamos ainda pelo título de lealdade aos princípios religiosos e que pugnamos heroicamente pela solução dos problemas sociais.
São Sebastião foi torturado, sofreu o martírio pela fidelidade a Cristo e demonstrou coragem em proclamá-la diante da tirania imperial. Fê-lo sem arrogância, mas sem desfalecimentos. Cumpridor respeitoso dos deveres de cidadão e soldado, evidenciou, com as circunstâncias de sua morte, que se pode unir o amor à Pátria e a Deus.
Ele é nosso Padroeiro. Sua festa pede um compromisso: combater o que desfigura a nossa cidade. As agressões que mancham seu rosto: a violência, a destruição ecológica e a epidemia da imoralidade. Nossa devoção nos leva a empenhar-nos para que o Rio de Janeiro corresponda ao seu nome original: “a mui leal e heroica cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro”.
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