Publicado por Tht em 11/4/2009 (1123 leituras)
Dom Eugenio SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Na noite do Sábado Santo damos início à festa da Páscoa, ponto de chegada da nossa caminhada quaresmal, iniciada na Quarta-feira de Cinzas. A celebração da Páscoa é de extraordinário valor para a vida religiosa, pois nos faz viver a vitória de Cristo, que nos garante a salvação. Fomos remidos, o pecado foi derrotado, nasce para a humanidade uma nova época. Lavados pelo Sangue de Jesus, infinitos horizontes se abrem. Embora continuem os efeitos do mal, este foi superado. O cristão, com o Ressuscitado, caminha seguro, confiante no poder de Quem derrotou a morte. Essa solenidade, colocada no ápice do ano litúrgico, nos convida ao otimismo em meio às provações da vida presente.
Há indícios de que os fiéis já celebravam esta festa na era apostólica. A partir do século II, encontramos documentação que nos mostra sua existência no calendário religioso. As informações se referem à Doutrina e à cerimônia litúrgica. No século IV foi introduzida, na quinta-feira anterior, a lembrança da instituição da Eucaristia.
No decorrer dos séculos, recebe aperfeiçoamentos. A Páscoa permanece sempre o ponto alto da solenidade iniciada pela Vigília. As trevas são vencidas pela luz do dia e nós vivemos o significado do grande acontecimento: a Ressurreição do Senhor.
Em consequência, hoje nos inserimos em fatos ocorridos na época dos Apóstolos, e nos é transmitida a mesma mensagem de então: Páscoa, fonte de esperança e otimismo! A vitória de Cristo não deve ser vista apenas como a superação da morte, último e indecifrável desfecho da passagem de cada ser humano no tempo. Inclui todas as contradições, ilusões, derrotas, decepções que marcam o percurso entre o nascimento e a morte.
O Concílio Vaticano II, na sua Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (nº 10), diante das interrogações mais profundas do gênero humano, nos ensina: “A Igreja, porém, acredita que Cristo, morto e ressuscitado para todos, pode oferecer ao homem, por seu Espírito, a luz e as forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema”.
Nas aflições de uma sociedade que parece ter enlouquecido, pensemos em Jesus, traído por um de seus amigos (Judas), negado por outro (Pedro), abandonado por todos os Apóstolos, menos um, o mais jovem, João. Experimentou a solidão e angústia de tantos doentes sem amparo, velhos, esquecidos pelos seus familiares mais próximos, um mundo sem esperança. Paulo sintetiza os dias do Salvador, que antecederam sua morte e Ressurreição, com essas palavras: “Ele, que não conhecia o pecado, foi feito pecado” (2Cor 5,21). Só uma coisa lhe restava, o Pai. E este se calava. Ninguém, nesta noite de sofrimento, de cruel agonia, poderá destruir a confiança de Jesus e esta foi confirmada na hora de sua gloriosa Ressurreição.
A Páscoa é o atestado de garantia do ensinamento de Jesus, do exemplo dado durante toda a sua vida. Dela surgem verdadeiramente a esperança, o abandono total ao Senhor, a paz autêntica, a força para sempre recomeçar, quando erramos o caminho e nos afastamos de Deus. Por isso, ao sair do túmulo e aparecer a seus Apóstolos, envergonhados por seu comportamento, o Mestre lhes apresenta a incomparável Mensagem pascal, na qual tudo se resume: “A paz esteja convosco! A paz!” (Lc 24,36; Jo 20,21.26).
O homem moderno, ofuscado pelo progresso e, ao mesmo tempo, confuso pela descoberta de ser falso o brilho do ouro que o encanta, constata o erro. A Páscoa lhe oferece o fato histórico de Cristo ressuscitado, vencedor da morte, a única resposta que não engana: “Eu carreguei teu pecado, eu me curvei sob o peso de tua culpa, eu vivi tua agonia, abri a porta do céu, o caminho até o coração do Pai. (...) Eu vos dou a paz, a minha paz, não como o mundo a dá” (Jo 14,27).
Na Ressurreição de Cristo encontramos a fonte do otimismo, ao receber a certeza de que a culpa do mundo pode ser absolvida. Há bondade no coração dos homens, pois o Nazareno inspira, no íntimo dos que amam a luz eterna, o amor e o perdão do Pai eterno. Ao morrer, não estamos mais sob o signo da maldição. Somos participantes da força redentora de Jesus. No Calvário foi acesa a chama da esperança, que jamais se extinguirá. O túmulo aberto inaugurou uma nova era para a humanidade. O homem, mesmo pecador, ao arrepender-se de sua falta, é capaz de renová-la. A mais profunda solidão desaparece em contacto com o Cristo vitorioso. A paz da Páscoa esteja convosco!
A festa máxima da Liturgia nos faz reviver a certeza da superação do bem sobre o mal como gostava de dizer o Papa João Paulo II: “Deus impõe limites ao mal” e nos aponta um múnus a cumprir: Cristo foi enviado pelo Pai com a missão de salvar o gênero humano, desviado pela desobediência. E, ao mesmo tempo, esse tesouro adquirido pelo Sangue do Cordeiro imaculado é confiado à Igreja, com a ordem de fazê-lo chegar aos confins da terra. O Concílio Vaticano II afirma em “Sacrosanctum Concilium” (nº 6): “Ele enviou os Apóstolos cheios do Espírito Santo , não só para que, pregando o Evangelho (...) mas também para que realizassem a obra da salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos”.
Por tradição apostólica, esse fato extraordinário da vitória do Messias sobre a morte, a Igreja celebra, ao longo do ano, “o mistério pascal todos os oito dias, no dia que se denomina ‘dia do Senhor’, o domingo” (idem, nº 106).
A Ressurreição de Cristo assegura a cada um de nós, seus humildes seguidores, a certeza de superar os males no presente e alcançar a paz eterna do seio de Deus. Feliz Páscoa!
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