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O Natal, enfim, mais uma Vez.
Publicado por Tht em 24/12/2009 (890 leituras)
O Natal, enfim, mais uma Vez.
Thiago Amorim Carvalho

Não deixa de ser notável que , em todos os anos, celebremos o nascimento daquele que É o princípio e o fim de tudo; ou que deveria ser: Nosso Senhor. Não deve nos cansar percorrer sempre a História da Salvação, porque Deus jamais se fatigou do homem, sempre procurando trazê-lo para perto de Si, por mais que a imperfeição da criatura recalcitrasse. Porque Ele é “paciente e tudo governa com misericórdia” (cf. Sb 15,1).

De fato, a impaciência é um atributo essencialmente humano, para quem o tempo, por vezes, importa mais do que deveria. O próprio Senhor desejou nos alertar para nossas (vãs) inquietações: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,34). Infelizmente, grande parte de nós teima em ignorar o conselho do Salvador do Mundo. O resultado? Ambição, ganância, corrupção, crises; frutos da perversão da ordem das coisas; consequências de um fim último que não transcende e não é capaz de nos ligar ao plano espiritual. O salário do pecado é a morte, justamente porque a morte é o efeito mais uniforme da vida material. Quem coloca seu objetivo neste mundo, estabelece uma corrida contra o tempo, seu adversário, obstáculo às conquistas pessoais, à própria ascensão humana. Quanto mais o homem é “crônico”, mais “anacrônico” se torna em relação ao Desejo de Deus, para quem o tempo não é nada além de um “ano letivo” dado ao livre-arbítrio para que efetue, em uma vida, uma escolha eterna: quem ou o que amamos? Optar pela ascensão nestas terras quase sempre se converte em descartar o outro caminho, o dos que, após a grande tribulação, lavaram e alvejaram seus trajes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,14).

Isso porque o tempo é uma manifestação do desejo de Deus e lhe fazer oposição é uma escolha objetiva contra o desígnio do Senhor. As implicações para esse ato humano não poderiam ter desdobramentos diferentes: “Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos” (Mt 7,17). Quem se coloca contra o plano divino, frequentemente vê se aproximar o fim de sua vida e, angustiado, pressionado pela Lei Natural, tornando-se irredutível, soberbo, acaba se colocando à frente dos outros, requerendo para si os primeiros lugares, desprezando os males que, porventura, possa ocasionar a terceiros. É preciso ser rápido, porque o tempo não dá trégua. Quem enche o coração de amargura, aprisiona a própria alma, naturalmente sequiosa dos bens que não passam, gerando uma aflição que não passa. Atormentado por tal estado, não raramente o homem busca se entorpecer, numa tentativa desesperada de amenizar um sofrimento interior profundo e doloroso.

E quando se diz “entorpecer” não se quer remeter apenas à figura das drogas de uso restrito, como comumente se pode supor. Há outras maneiras de se viciar: a ganância pode levar a assassinatos; a sede de poder pode desunir famílias; o temor do declínio social pode se converter em ódio mortal contra pessoas ou entidades... O mal é uma declaração de guerra a Deus e é por isso que aqueles inocentes, vítimas das chacinas provocadas pela opressão dos que decidiram seguir os caminhos das trevas, são chamados por João no Apocalipse de “sobreviventes”. Fato é que todas as decisões dos homens têm consequências na ordem divina e não afetam, nunca, somente a si mesmos. Como ondas num lago, propagam-se em todas as direções.

Alguém se lembra daquele adágio popular: “ninguém tem nada que ver com a minha vida”? Pois que fique claro: desde que Nosso Senhor nasceu essa sentença é uma torpe e ignominiosa mentira. Quando nos tornamos em Cristo um só Corpo e um só Espírito, através do que, no Símbolo, confessamos como Comunhão dos Santos, todos os atos humanos passam a gerar efeitos, consequências, que transcendem o plano deste mundo e atingem, de uma maneira ou outra, tudo e a todos.

No momento que alguém, achando-se esperto, deixa de quitar uma dívida ou, usando subterfúgios não ortodoxos, ilude ou disfarça alguma coisa em benefício exclusivo de si ou de grupos privados, acredite: alguém sempre paga a conta; algumas vezes empresas que acabam tendo prejuízos os quais, por sua vez, talvez façam atingir alguém inocente, cuja demissão acabará desagregando uma concreta estrutura familiar; ou quem sabe o efeito seja, “simplesmente”, a perda dos laços de confiança que, outrora, perfaziam uma autêntica amizade ou até as relações entre pais e filhos. Já no Alto, o preço a ser pago poderá ser caro demais a ponto de não existir crédito terreno suficiente para suprir o descrédito celestial. Também sobre isso, fomos alertados: “neste mundo, os filhos das trevas são mais astutos em seus negócios que os filhos da luz” (cf. Lc 16,8).

Toda essa locução, um tanto quanto melancólica, quer realçar um caráter muito oportuno que os repetidos natais acabam por trazer à tona: a possibilidade do “renascimento”. A mensagem que o Senhor nos envia com seus múltiplos natais alcança, de certa maneira, o início deste texto: Ele jamais desiste do homem e de atraí-lo para Si, concedendo-lhe a todo momento, através de sua liberdade, a oportunidade de alterar seu passo; de caminhar com Deus e a favor dos ventos de seu Espírito Santo; de se tornar um homem novo, guiado pela estrela que leva ao fim último gravado em sua alma; ao Menino da estrebaria.

Isso significa libertar nosso espírito da prisão em que o colocamos; rever nossas atitudes, colocando-as debaixo da Luz que emana do Alto e nos pondo a caminho de Belém, passando de nossa posição de patrão de “nossa” vida a de servo; deixando-nos ensinar pela pedagogia do sofrimento que, longe de se tornar a expressão de um masoquismo sem sentido, trata-se, ao contrário, da mais pura consequência inerente a quem aprendeu a Amar. Com efeito, é verdade que o Salvador, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cf. Jo 13,1), fim este que não foi outra coisa senão o sacrifício que redimiu a humanidade com o sangue do Cordeiro; a morte na cruz. E é o próprio Jesus quem nos intima: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (cf. Mt 16, 24).

Possamos todos nós acolher o Verbo, que se faz carne em nosso meio sem nos exigir nada em troca. Gratuitamente, se coloca a nosso serviço, lava nossos pés e nos indica, com esse gesto tão pequeno, a grandeza da humildade cristã que se opõe à soberba, irônica geratriz do Natal, como nos diz Santo Agostinho; é exaltada no presépio, na pobre manjedoura e nos pastores e à qual devem se submeter até os reis. Aprendamos a ser os últimos para que sejamos chamados aos primeiros lugares (cf. Lc 14,10) e que nós nos encontremos mais tarde, no santuário do Senhor, destino dos justos, “que têm mãos puras e inocente coração; que não dirigem suas mentes para o crime” (cf. Sl 23).

Um Feliz Natal para todos.
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