Publicado por Tht em 22/5/2009 (1823 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Com impressionante rapidez multiplicam-se os instrumentos que facilitam a comunicação entre os homens. Variados serviços se implantam com objetivos econômicos de segurança, informações, cultura ... Igualmente, avança a utilização, as mais díspares, dos computadores, inclusive nos afazeres domésticos. O interrelacionamento indivíduo-comunidade abre novas fronteiras ao intercâmbio humano. A informática pede atenção cuidadosa, tendo em vista o surgimento da chamada “sociedade de informação”. Isto se torna mais eloquente quando observamos crianças que já utilizam tais equipamentos. As imensas perspectivas que se abrem acarretam também ônus. Qual o comportamento, diante de novos horizontes?
E que temos nós, cristãos, com essa revolução tecnológica? Mais do que aparece à primeira vista, esse fenômeno atinge o recôndito da missão eclesial.
A Igreja tem dedicado importantes documentos a esse tema de suma relevância no mundo moderno. Sem me referir às mensagens por ocasião das celebrações do “Dia Mundial das Comunicações Sociais” e discursos em oportunidades diversas, há um que merece destaque pela sua origem, a autoridade conciliar: é o Decreto “Inter Mirifica”, do Vaticano II, promulgado pelo Papa Paulo VI a 4 de dezembro de 1963.
A transcendência do assunto pede que seja recordado periodicamente aos cristãos e homens de boa vontade. É inegável a influência dos canais de comunicação na divulgação de ideias no mundo e sua repercussão no relacionamento social entre todos os seres. Por isso, na mensagem deste ano para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais, com data de 24 de janeiro último, o Santo Padre Bento XVI evoca o tema das “Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade”. Segundo o Santo Padre, “as novas tecnologias digitais estão a provocar mudanças fundamentais nos modelos de comunicação e nas relações humanas (...). Devemos fazer com que as vantagens que oferecem sejam postas ao serviço de todos os seres humanos e de todas as comunidades, sobretudo de quem está necessitado e é vulnerável”.
Continua o Santo Padre: “Quando sentimos a necessidade de nos aproximar das outras pessoas, quando queremos conhecê-las melhor e dar-nos a conhecer, estamos respondendo à vocação de Deus - uma vocação que está gravada na nossa natureza de seres criados à imagem e semelhança de Deus, o Deus da comunicação e da comunhão”.
O cristianismo transmite uma mensagem de comunicação. Em outras palavras, por meio dela mergulha suas raízes no terreno firme de uma doutrina segura.
O dogma da Santíssima Trindade é o eixo central de nossa crença. Nós sabemos, pela fé, que Deus não é, no mais íntimo de sua realidade, uma profunda solidão, mas uma inefável comunhão, que se consuma no misterioso liame entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Na encarnação, o Verbo se fez homem e habitou entre nós, isto é, vinculou-se às criaturas de maneira radical, assumindo a própria natureza humana.
O termo “evangelho” significa precisamente uma maravilhosa notícia, o anúncio de que em Jesus Cristo, Deus que se fez nosso irmão, somos todos filhos do Altíssimo. Proclama, portanto, a nossa eminente dignidade.
Citando palavras da Instrução “Communio et Progressio”: “Durante a sua permanência na terra, Cristo manifestou-se como perfeito Comunicador. Pela ‘Encarnação’ fez-se semelhante àqueles que haviam de receber a sua mensagem; mensagem que comunicava com a palavra e com a vida (...). Comunicar não é apenas exprimir ou manifestar sentimentos; no seu mais profundo significado, é doação de si mesmo, por amor (...). Integrados, pois, nesta Igreja e provocados pela Palavra e Sacramentos que nos comunica, caminhamos na esperança daquela comunhão definitiva, quando ‘Deus for tudo em todos’” (cf. Col 3,11; 1Cor 15,28).
Nos primeiros tempos da Igreja, diz o Santo Padre Bento XVI em sua mensagem, “os Apóstolos e os seus discípulos levaram a Boa Nova de Jesus ao mundo greco-romano: como então a evangelização, para ser frutuosa, requereu uma atenta compreensão da cultura e dos costumes daqueles povos pagãos com o intuito de tocar as suas mentes e corações, assim agora o anúncio de Cristo no mundo das novas tecnologias supõe um conhecimento profundo das mesmas para se chegar a uma conveniente utilização”.
Temos diante de nós grande desenvolvimento técnico, que prenuncia outros ainda maiores. Não há dúvida, porém, que o progresso vem sendo marcado pela ambiguidade. Qual o seu saldo moral? Ele apresenta imensos aspectos positivos, mas não pode evitar outros negativos. A rapidez amplia o problema ético no conteúdo das mesmas comunicações. São um poderoso veículo de promoção da dignidade humana, mas podem também ser manipulados pelos que exploram esses meios para a degradação e aviltamento do homem, em grande escala.
O Santo Padre recorda que, “sobre o significado das novas tecnologias, é importante considerar não só a sua indubitável capacidade de favorecer o contacto entre as pessoas, mas também a qualidade dos conteúdos que aquelas são chamadas a pôr em circulação. Desejo encorajar todas as pessoas de boa vontade, ativas no mundo emergente da comunicação digital, a que se empenhem na promoção de uma cultura do respeito, do diálogo, da amizade”.
O Papa Bento XVI termina sua mensagem com um apelo aos jovens: “A vós que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste ‘continente digital’. Sabei assumir com entusiasmo o anúncio do Evangelho aos vossos coetâneos (...)! O dom mais precioso que lhes podeis oferecer é partilhar com eles a ‘boa nova’ de um Deus que Se fez homem, sofreu, morreu e ressuscitou para salvar a humanidade”.
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