Publicado por Tht em 26/7/2009 (417 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
A dignidade pessoal é um grande patrimônio, zelosamente defendido e proclamado. O apanágio de seu valor é a liberdade. Ela condiciona e preserva o direito que cada um tem de manifestar seu pensamento, dentro das normas do bem comum, de não ser induzido ao erro ou forçado a tomar, mesmo se só interiormente, posições que constrangem sua consciência.
Contudo, uma série de elementos influencia decisivamente a vontade das pessoas. De certo modo, em nossos dias, há no mundo, mais escravos que no tempo em que florescia a chaga da escravidão oficializada.
Hoje tomo em consideração apenas um fato que limita ou corrompe a faculdade dentre as mais nobres do ser humano, que é a de tomar decisão sem coação ilegítima. A força da opinião pública é mais poderosa que a dos grilhões que prendiam os prisioneiros de guerra ao carro de generais vitoriosos. Mediante técnicas sutis, cria-se a sensação de se seguir o próprio arbítrio ou se faz crer às multidões, que aderem a uma certa tendência, estarem a livrar-se das trevas do obscurantismo, quando a realidade é bem diversa. Constata-se, também, o esmagamento dos fracos, que se atemorizam diante dos olhares reprovadores da maioria manipulada e, assim, recuam, cedem, se acovardam. Quem dispuser de 20% dos componentes de uma assembléia e for inteligente, muito provavelmente poderá orientá-la segundo seus propósitos, bons ou maus.
Quando falo em “opinião pública”, refiro-me a um fenômeno social, coletivo. Surge quando, em certo momento, um número aparentemente expressivo de uma comunidade assume determinada ideia, tese, corrente ideológica ou doutrina. Ela paira acima dos indivíduos e os pressiona fortemente. É condicionada por circunstâncias alheias a cada pessoa e atua indevidamente sobre a consciência de cada um; trazendo consigo como sinal a insegurança. Facilmente arrastada por modismos, por orquestrações de minorias ruidosas, uma vez passada a novidade, ela mesma tudo repudia.
Pode-se dizer que uma das importantes invenções de nosso século foi a descoberta das técnicas de criar e orientar esse poder tirânico. Chama-se “propaganda” (marketing), força hoje utilizada com imensos recursos financeiros para fins ideológicos, políticos e comerciais. O seu emprego pode ser útil ou não, depende da consciente finalidade para que é usado. Curiosamente, nós a empregamos em favor da expansão do Evangelho. Há mesmo um organismo pontifício, antes com o nome de “Propaganda Fidei”, cuja função era – e é – promover a evangelização dos povos. Para a Igreja, porém, ela não tem o sentido de seduzir ou mesmo violentar a liberdade, mas de atraí-la para o Bem absoluto, Jesus Cristo.
Como a Igreja se relaciona com a opinião pública? Durante muito tempo – consideremos o caso do nosso Brasil – a Igreja foi a grande formadora da nossa mentalidade. A instituição eclesiástica, com sua extensa rede de dioceses, paróquias, capelanias, cobria todo o território nacional e mantinha contato com a população. Não havia rádios, mas os sinos de milhares de templos, os campanários, convocavam o povo para ouvir a Palavra de Deus. Ela era anunciada com a certeza que penetrava as mentes e nelas se sedimentava, não como opiniões, mas como verdades de Fé. O Brasil é, hoje, o maior país católico do mundo se levarmos em conta as estatísticas e ainda considerando o substrato em que se consolidou a ação evangelizadora. Conserva, com surpreendente tenacidade, crenças e valores autenticamente cristãos.
Atualmente, no entanto, há alterações profundas: vivemos num espaço cultural pluralista, no qual a técnica ofereceu à propaganda meios poderosos de impor necessidades a serem atendidas ou ideias que devem ser seguidas. É como se, num mar sereno, começassem a surgir correntes nas mais variadas e mesmo conflitantes direções.
Basta um pequeno número de pessoas, movidas por qualquer objetivo, inclusive o da sua autopromoção, apoderar-se de um conceito como de uma bandeira para formar um movimento, usando os instrumentos de comunicação. A celeuma produzida por grupos ruidosos conduz à ilusão de um consenso nacional, ante o espanto das maiorias silenciosas. O divórcio foi uma dessas bandeiras, como é hoje o controle da natalidade, o homossexualismo e, como poderá ser amanhã, a eutanásia.
Todos esses fluxos correm em um leito comum, o hedonismo, a maximização do prazer, a ilusão da liberdade travestida em permissividade e, no campo religioso, ideias alheias à pureza doutrinária, acobertadas por motivos vários.
Perde-se a noção da grandeza humana, do dever e do valor divino do sofrimento. Leva-se de roldão, assim, a ética, os princípios morais, únicos que podem salvar num momento doloroso de crise. Chega-se ao absurdo de propor o plebiscito para decisões que absolutamente transcendem uma mera questão de número para sua aceitação ou não, como matar, roubar... Cito como exemplo o caso do aborto no Brasil.
A Igreja seria infiel à sua missão se não se mantivesse em vigilância permanente contra tais aberrações. Levantará sempre a sua voz. Este assunto também interessa diretamente à Fé. Sob o nome de um pluralismo sadio em sua conceituação legítima, acobertam-se erros que destroem o cerne do Cristianismo. Da confusão daí decorrente, males se infiltram nas consciências e atitudes dos cristãos. Devemos estar vigilantes.
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