Publicado por Tht em 02/8/2009 (570 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
A 4 de agosto ocorre a celebração litúrgica de São João Batista Maria Vianney, o Cura d’Ars. Este ano, há uma outra razão especial para maior solenidade: a celebração dos 150 anos de sua morte. Aproveito da oportunidade para algumas reflexões sobre o modelo e patrono dos párocos, título este outorgado em 1929 por Pio XI, que o havia canonizado, em 30 de maio de 1925.
A vida cristã de uma sociedade tem íntima relação com os seus padres. O vigor da prática religiosa decorre, em parte, do tipo de clero que se tem. A santidade deste, promove e preserva a saúde espiritual e moral dos fiéis com enorme e transformadora repercussão nas estruturas sociais e econômicas. O Cura d’Ars comprova essa assertiva.
Era difícil a situação da Igreja, na França, após a revolução de 1789. Com 29 anos, João Vianney recebeu o presbiterato a 13 de agosto de 1815. De 1789 a 1815, o número de ministros consagrados ficou reduzido à metade e apenas 4% com idade inferior a 40 anos. Quando chegou a Ars, em 1818, após ter permanecido como vigário paroquial em Ecully, era lastimável o ambiente reinante, resultado da perseguição religiosa, do triunfo de um orgulho racionalista. Todas as vezes que estive em Ars, procurei no antigo caminho que dava acesso à aldeia, um monumento. Ele marca um episódio, início de uma profunda mudança: o novo Cura de Ars (foi elevada à paróquia em 1821), viajando a pé, se informa com um jovem: “Ensina-me o caminho de Ars e eu te ensinarei o caminho do céu”. Eis a síntese das realizações que modificaram a face da Igreja, na França, alargando sua influência aos confins da terra.
A pastoral da época era muito simples e quase monótona: celebrar missa durante a semana (com a presença de umas poucas piedosas mulheres), pregar nos domingos, instruir as crianças na Doutrina, ouvir algumas confissões, administrar o sacramento dos enfermos a moribundos (“História Eclesiástica”, VII, Jedin, pág. 848ss).
Tomado pelo zelo apostólico, organiza um movimento para os homens e outro para as senhoras, em 1824. Abre uma escola elementar; funda o Orfanato da Providência; transforma aquela aldeia perdida na área rural em um centro religioso da França, que atravessa os séculos. Toda essa obra foi alicerçada em três pilares: a oração, o pobre, o pecador.
A prioridade à vida interior, à prece caracteriza toda a atuação do Cura d’Ars. Tenta, quatro vezes, fugir para ser monge contemplativo. Os paroquianos, ao impedirem-no, revelando singular modificação em suas vidas.
Vivendo desapegado dos bens materiais, amou os desvalidos. O Cardeal Luçon resume sua existência nestes termos: “Se alguém quisesse pintar a pobreza, não precisaria dum modelo mais perfeito” (“O Cura d’Ars”, Francis Trochu, 2ª edição, pág. 383).
A angústia pela conversão dos pecadores leva-o a entregar-se, com coragem extraordinária, ao púlpito e ao confessionário.
A catequese do Cura d’Ars em 1830, era de êxito invulgar. Tinha a constante preocupação de se expressar em linguagem compreensível até às pessoas mais rudes. Ao mesmo tempo, indicava uma radical e filial fidelidade à Igreja com profunda sensibilidade pelos Mistérios da Fé.
As multidões, vindas de todas as partes e oriundas das mais diversas camadas sociais, escutavam-no atentamente. Uma resposta do Padre Lacordaire retrata o valor desse humilde pregador. No dia 3 de maio de 1845, chegava a Ars, incógnito. O grande orador dominicano rejeita uma comparação com sua extraordinária eloquência, com estas palavras: “Este santo sacerdote exprimiu, de uma maneira admirável, ao falar do Espírito Santo, um pensamento em busca do qual eu andei muito tempo” (“O Cura d’Ars”, Francis Trochu, 2ª edição, pág. 382).
O confessionário está de tal forma associado à figura de São João Maria Vianney que é difícil entender sua vida sem o atendimento aos fiéis no sacramento da Penitência. Por horas infindáveis, ouvia os pecadores. E pensar que, no início de seu sacerdócio, demorou a receber permissão para confessar quem viria a ser, certamente, um dos mais célebres ministros desse sacramento, nos últimos séculos!
Em um período da História, no qual era tão anêmica a vida da Igreja, assolada por tantos obstáculos e dificuldades, o Espírito Santo envia alguém simples, não-erudito que consegue influenciar radicalmente os caminhos dessa mesma Igreja. Ele era, verdadeiramente, um sacerdote.
Hoje, Deus é o mesmo; o sacramento da Ordem não sofreu qualquer modificação no seu conteúdo. O que falta, então, para a eficácia de um trabalho evangelizador? Eu creio que é encontrar pessoas que, consagradas, sejam, pela santidade de vida, instrumentos da Graça divina.
E viver assim não é alienar-se da realidade, da miséria em que se acham muitos de nossos irmãos. Pelo contrário, é atendê-los plenamente, pois, reconduzindo os pecadores ao Pai, destruímos, no íntimo, a maldade das criaturas. A violência, a injustiça, o egoísmo nascem no coração que afogou, no seu interior, toda a grandeza na qual cada um de nós foi criado, pelo Senhor.
O que ocorreu na época do Cura d’Ars, pode suceder em nossos dias. E o mundo será diferente. Em sua carta de proclamação do Ano Sacerdotal assim escreveu o Santo Padre Bento XVI: “Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, à vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência (...). Os ensinamentos e exemplos de São João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência”.
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