Publicado por Tht em 10/10/2009 (375 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
A Igreja sempre demonstrou a necessidade de expressar, em gestos concretos, sua unidade de Fé e disciplina. São Paulo sente o dever de ir a Jerusalém obter a chancela para seus trabalhos: “Pedro, Tiago e João, tidos como colunas, estenderam-nos a mão, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão” (Gl 2,9).
Depois, é para a sede do Império Romano, do mundo civilizado, que se transfere aquele que recebeu a missão de apascentar todos os homens.
Inácio de Antioquia, o maior Bispo do Oriente, companheiro dos que tinham convivido com o Mestre, implorava a graça de conhecer Roma, onde – conforme diz – está a autoridade de Pedro (Inácio, Carta aos Romanos).
O Bispo de Esmirna, Policarpo, vai à Cidade Eterna entre 155 e 166, pois, segundo ele, é somente lá que as comunidades eclesiais do Oriente representadas por ele, têm a legitimação ou “não” para seus costumes próprios. Seu encontro com o Papa Aniceto é um momento histórico, prova que o Príncipe dos Apóstolos é a marca da identidade cristã.
Irineu, mártir em Lyon, em 202, diz que a autêntica apostolicidade de um bispo exige a comunhão com o Santo Padre (“Adversus Haereses”, 3.3,1-3).
Cipriano de Cartago, próximo ao ano 250, explica e resume a antiga doutrina em relação ao centro da cristandade: “A cátedra de Pedro, Igreja principal da qual surgiu a unidade sacerdotal (isto é, do Colégio Episcopal)” (Epístola 59,14).
A viva consciência do papel de Pedro se manifestava, desde os primórdios, em uma vinculação a ele na pessoa do Papa. Sob condições as mais penosas, os grandes metropolitas e outros Pastores venciam distâncias incríveis para visitá-lo.
A luta contra heresias e divisões internas tornava mais explícita a importância desse contato. A união afetiva e efetiva com o Bispo de Roma constituía questão vital para autenticar uma comunidade católica.
Na Idade Média, era costume sagrado a viagem para reverenciar os túmulos de Pedro e Paulo.
Os Arcebispos, para significar sua função sobre os sufragâneos, começaram a receber das mãos do Sumo Pontífice o pálio, como uma participação na autoridade universal de que se sabia investido. Instituiu-se o uso e o dever de eles todos irem, com certa regularidade, à casa e às tumbas, isto é, ao Papa e ao sepulcro de Pedro e Paulo (Jedin, III, 652).
Zacarias I, já em 743, obrigou todos os sucessores dos Apóstolos que não residissem longe, a uma viagem anual.
Pascoal II (1098-1118) prescreveu a todos os Metropolitas o juramento e obediência, além do compromisso intitulado “ad limina Apostolorum”.
Sua regulamentação, veio com Gregório IX, em 1234. Os chamados citramontani (praticamente a Itália), anualmente; os ultramontani, em cada biênio; os ultramarini, aos três ou cinco anos.
Durante o exílio de Avignon, prevaleceu o axioma: “Ubi Papa, ibi Roma”, isto é, naquela cidade desempenhava-se essa incumbência.
Em toda a História eclesiástica perdurou a necessidade absoluta de ser expressa por sinais externos a unidade da Fé, manifestada por esse costume devocional do contato pessoal com o Bispo de Roma e a presença junto ao túmulo de Pedro e Paulo. Em momentos de crise esse gesto assume maior relevância.
A Santa Sé, desde há muito, distribuiu por áreas geográficas o exercício dessa obrigação, com o objetivo de poderem os Pastores de todos os continentes executá-lo de maneira mais organizada e eficaz. No caso do Brasil, as dioceses estão divididas por 17 regionais. Os bispos dessas respectivas Igrejas Particulares, de setembro deste ano até 2010, seguirão esta mesma prescrição. Além disso, remetem um minucioso relatório chamado “quinquenal”. Ele é uma exposição das mais diversas atividades desenvolvidas nesse período em sua circunscrição eclesiástica.
Por ocasião da audiência com o Santo Padre, há também a visita às grandes Basílicas, inclusive ao túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo. Acrescente-se a oportunidade para tratar dos múltiplos aspectos da vida diocesana com os Dicastérios da Cúria romana, responsáveis, em nome do Sumo Pontífice, pelo governo da Igreja Universal.
Sem dúvida, “ver Pedro” constitui diante dos fiéis um sinal edificante de unidade e uma catequese sobre a missão do Papa.
Cada Pastor leva consigo, de certa forma, a própria comunidade. Pela oração e fortalecimento dos laços que unem a Pedro, espera-se um crescimento espiritual. Somos os continuadores de uma tradição, beneficiária das bênçãos do Senhor. Esta viagem é uma afirmação, em gestos concretos, da unidade da Fé e da disciplina.
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