Publicado por Tht em 21/11/2009 (923 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Quando se fala em Feira da Providência, surge logo a ideia de ajuda aos necessitados e de um trabalho promocional em favor dos irmãos carentes. Sem negar suas nobres finalidades, reveladoras de sensibilidade cristã em nossa população, julgo a iniciativa – que completa 49 anos e será realizada de 25 a 29 de novembro -, em um contexto mais amplo. Ela é essencialmente uma escola. Há um método tradicional de ensino, aliás, insubstituível. Entretanto, ele é completado pelo ambiente em que se vive. Essa atmosfera, que nos envolve, consequência do que se aprende na vida, exerce importante papel. Tanto pode implementar o que nos instruiu na classe, como também se tornar um fator desagregador e destrutivo para o indivíduo e a sociedade.
Sua realização, todos os anos, com o sugestivo nome de “Feira da Providência”, presta à nossa comunidade relevantes serviços, independentemente dos resultados financeiros que garantem a sobrevivência, por mais um ano, das atividades do Banco da Providência, criado por D. Helder Câmara, que este ano recebe uma especial homenagem pelo centenário de seu nascimento.
Um dos fatores que mais influem para a desagregação da sociedade é o egoísmo. Movido por tal sentimento mesquinho, cada um busca seu próprio interesse, quando o bem comum e nossa Fé exigem outra atitude. Nada de positivo e duradouro se constrói quando o próximo é marginalizado no meio em que estamos inseridos.
Colocar como alvo um nobre ideal, soma e aglutina esforços para a construção de um mundo melhor e restauração de uma ordem social, hoje fortemente atingida pela violência, pelo ódio e feroz competição.
Milhares de pessoas, de classes e idades diferentes se unem, cada qual interessada em contribuir para um projeto que resulte em favor de irmãos necessitados. E a generosidade despendida alcança frutos, jamais obtidos por uma ação isolada.
Não são apenas pessoas em idade madura, mas inúmeros jovens, que se organizam com a generosidade que lhes é característica. Ao se integrarem no meio de tantos colaboradores, eles próprios são levados a essa preocupação pelo irmão mais carente. Agindo assim, são eles próprios beneficiados, pois completam sua educação à medida que plasmam o caráter no combate ao egoísmo. Diretamente voltados para o outro, é comum o entusiasmo que deles se apossa, propiciando à Feira uma tonalidade altamente positiva. Tenho verificado, nas vezes anteriores, os frutos que advêm dessa alegria contagiante.
Um outro aspecto educativo tem sido a aproximação entre países, e de indivíduos, provenientes dos outros Estados da Federação, possibilitando sadio e frutuoso reencontro. Em um mundo dividido, congregar quem está disperso resulta em contatos gratificantes. Esse exemplo de comunhão entre pessoas ou instituições, motivadas pela consciência de poder ajudar nosso próximo, gera efeito sadio não só para quem comparece, como também para os destinatários da renda financeira obtida.
A união em favor dos mais fracos é, igualmente, um fundamento de paz entre povos, famílias e simples cidadãos. Tudo ali se destina a somar contribuições, grandes ou pequenas, com um objetivo nobre e elevado, em prol dos mais carentes. Não sabemos seus nomes, somos movidos pela carência em que vivem.
Muitas dificuldades que nos angustiam teriam solução se as pessoas se dispusessem a um entendimento mútuo. Isso se obtém pela compreensão recíproca e pelo estímulo aos sentimentos de ternura com os mais desprotegidos. Em um aglomerado humano, tão castigado por atos de violência, essas virtudes naturais ou cristãs tendem a fenecer, quando dão lugar a reações de hostilidade, dureza ou alheamento, diante da indigência.
A Feira da Providência é um chamado à responsabilidade, que recai sobre todos, na solução dos problemas de nossa Cidade. Cada um contribui, de uma ou de outra forma, anonimamente, muitas vezes, em favor do próximo. Essa ação educativa atinge a comunidade pela influência na vida pública. O cultivo de gestos generosos, em centenas de milhares de participantes, tende a criar um obstáculo ao nascimento ou progresso de comportamentos anti-sociais. Muitas vezes tudo se passa desapercebidamente, mas a semente, mesmo pequena, quando germina, produz frutos em favor da coletividade.
Uma festa popular como esta e tantas outras, realizadas em paróquias de centros desenvolvidos ou de pequenas localidades, proporcionam pela aproximação entre as pessoas, incalculável contribuição ao relacionamento humano. Fomos criados para viver de forma comunitária e não no isolamento. Ele, às vezes, subsiste em meio à agitação das multidões. Embora inserido na massa, o indivíduo internamente permanece sozinho. Um festejo ao gosto do nosso povo, age de modo positivo no atendimento a essa necessidade de entretenimento e de congraçamento.
Impressionante, na Feira da Providência, a alegria espontânea, a tranquilidade e a confiança de muitos pais que levam seus filhos pequenos, sem receio, a um lugar onde tantos se concentram e manifestam seus sentimentos. O clima pacífico é altamente educativo e age no combate ao mal da solidão e à praga da violência.
Tais resultados compensam os imensos sacrifícios e canseiras despendidos, no anonimato, por seus executores. Estes, certamente, se sentem gratificados por contribuírem para o bem de nossa Cidade e de tantos irmãos necessitados.
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