Publicado por Tht em 05/12/2009 (552 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Concluído há 44 anos, o Concílio Vaticano II foi um evento extraordinário que marcou a história da Igreja. Com esse espaço de tempo já decorrido, muito útil uma análise sobre o cumprimento de suas diretrizes entre nós. Uma oportunidade de avaliação que gera ação de graças pelo bem realizado. Ao mesmo tempo, desperta nossa responsabilidade para o muito que deve ainda ser feito na execução de suas determinações e na vivência do seu espírito.
Afirma o Padre René Latourelle SJ que “o Vaticano II representa certamente a mais vasta operação de reforma jamais realizada na Igreja”, não somente pelo elevado número de participantes, pela unanimidade eloquente das votações, mas, sobretudo, pela ampliação dos temas tratados na assembleia conciliar (“Vaticano II, Bilancio e Prospettive”, Assis, 1987, p.9).
O Papa João XXIII o convocou na Basílica de São Paulo “extramuros”, em 25 de janeiro de 1959, afirmando que o fazia “não sem uma inspiração divina”. Grandioso foi o objetivo proposto: atualizar a ação eclesial para enfrentar os problemas do mundo moderno, em perspectiva universal. Paulo VI prosseguiu no mesmo objetivo e o concluiu solenemente a 8 de dezembro de 1965. A este acontecimento se remonta o Santo Padre Bento XVI com as seguintes palavras: “na Praça da Basílica de São Pedro, o Papa Paulo VI concluiu solenemente o Concílio Vaticano II (...). Teve seu encerramento no dia da Imaculada. No seu discurso por ocasião da promulgação da Constituição conciliar sobre a Igreja, ele tinha qualificado Maria como ‘protetora do Concílio e, com uma alusão inconfundível à narração do Pentecostes, disse que os Padres se tinham reunido na sala do Concílio ‘cum Maria, Matre Iesu’ e, também no seu nome, sairiam” (Homilia no 40º aniversário do Concílio, a 08 de dezembro de 2005).
O Concílio suscitou ampla reflexão em toda a Igreja, que se voltou corajosamente para os grandes temas da doutrina católica, movida por um anseio de atualização e aprofundamento, para assim corresponder mais autenticamente à missão recebida de seu Senhor e Fundador.
Fidelidade e arrojo pastoral estiveram presentes durante as sessões conciliares. Foram elaborados documentos profundos e vigorosos, que têm inspirado a vida e a ação da comunidade cristã nesse período e irão influenciar as gerações futuras. A renovação da Liturgia e dos estudos bíblicos, a partir das Constituições “Sacrosanctum Concilium” e “Dei Verbum”, uma nova consciência acerca da própria identidade da Igreja suscitada pela “Lumen Gentium”, o diálogo com o mundo motivado pela Constituição “Gaudium et Spes”, a busca da união dos cristãos com o documento “Unitatis Redintegratio”, a vida religiosa com a “Perfectae Caritatis”, eis algumas das consequências positivas daquela magna assembleia.
Pode-se dizer que, em suas manifestações exteriores, a Igreja se abre de uma maneira inédita para os graves problemas contemporâneos, em atitude de atenção constante e de sensibilidade para o movimento cultural em desenvolvimento. Ela o faz porque experimenta, também no seu interior, uma renovação que a revigora: o apelo universal à santidade, maior consciência de ser Povo santo de Deus, que se manifesta em ardor apostólico e missionário. Foi dado impulso ao aperfeiçoamento da ação presbiteral e à vocação do leigo, tudo isso harmoniosamente inserido em uma visão da Igreja como comunhão garantida pelo colégio episcopal, “cum Petro et sub Petro”.
Os ensinamentos e o espírito deste Concílio Ecumênico não foram isentos de interpretações incorretas, que levaram não raras vezes a práticas pastorais desastrosas e a atitudes eclesiais insensatas. Ao lado do merecido coro de entusiásticos elogios há, no entanto, distorções.
A apreciação da obra do Vaticano II exige uma coerente atitude de fidelidade na sua aplicação. E a coragem de denunciar a falsa moeda que se tenta passar com o cunho de “conciliar”. Tal deturpação assume várias formas. Uma realça um determinado ponto dos textos conciliares e, propositalmente, deixa na sombra do esquecimento outros que o completam e explicam. Uma outra interpretação dos documentos, acaba apelando para proposições que foram reprovadas pelo voto dos próprios Padres participantes do Concílio.
Sem falar da insubordinação contra os legítimos Pastores, das críticas ácidas à própria Igreja, da perda do sentido sobrenatural e do compromisso inaceitável com os esquemas equivocados de um mundo que deve ser evangelizado. Frutos dessas anomalias se veem na Liturgia. Ao lado e no lugar dos benefícios advindos da “Sacrosanctum Concilium”, surgiram abusos e inovações infelizes.
Os textos do Vaticano II devem inspirar nossa reflexão, animar os estudos eclesiásticos, orientar a ação pastoral de nossas comunidades eclesiais. A fidelidade aos seus ensinamentos é característica indiscutível de cada membro fiel da Igreja.
Ao publicar o Código de Direito Canônico, em 1983, o Papa João Paulo II, afirmando que o Código traz em si o espírito do Concílio, augurava-se “que a legislação canônica se torne instrumento eficaz, do qual se possa valer a Igreja, a fim de aperfeiçoar-se segundo o espírito do Concílio Vaticano II e sempre mais apta para exercer, neste mundo, sua missão salvífica” (Constituição “Sacrae Disciplinae Leges”).
Nestas palavras temos a indicação precisa do caminho a seguir. Assim recordaremos condignamente o Concílio.
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