Publicado por Tht em 13/12/2009 (1134 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Uma característica do povo brasileiro é a solidariedade com os sofrimentos do próximo. As enchentes, o drama da seca em algumas regiões, têm profunda ressonância na alma de nossa gente, o que revela riqueza espiritual e moral. Em meio a tantos eventos que nos afligem é bom proclamar esse fato altamente positivo, pois grande inquietude e angústia invadem corações diante das dificuldades por que passam muitos de nossos irmãos.
Refazer um ambiente de confiança no futuro, fortalecer a esperança de melhores dias, mostrar valores, como esta reação diante dos infortúnios, é algo importante. Contribui para alcançar a vitória sobre os obstáculos que nos prejudica.
Contudo, outro problema não só atormenta o Brasil, mas boa parte da humanidade: a fome. Foi esta a temática abordada pela Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar realizada entre os dias 16 e 18 de novembro em Roma. Na oportunidade do seu discurso, o Santo Padre Bento XVI afirmou que “não é possível continuar aceitando a opulência e o desperdício, quando o drama da fome adquire cada vez maiores dimensões”.
A sensibilidade cristã não mais suporta esse escândalo. Há algo de errado. Trata-se de um fenômeno que não é inesperado como uma inundação e que se abate sobre vastas regiões com população já depauperada. O eufemismo da subnutrição esconde esta realidade hedionda, execrável e vergonhosa.
Acresce outro drama: a miséria extrema traz em seu bojo germes do desfibramento que afetam não só o corpo, mas o próprio caráter. A luta pela sobrevivência física arrasta consigo males morais incalculáveis.
O Concílio Vaticano II nos ensina: “(...) os bens criados devem chegar, equitativamente, às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade (...). Assim pensaram os Padres e Doutores da Igreja, ensinando que os homens têm a obrigação de auxiliar os pobres e não apenas com os bens supérfluos”. Nesse sentido o Santo Bento XVI continua o seu discurso afirmando: “o desenvolvimento humano integral requer decisões responsáveis por parte de todos e pede uma atitude solidária que não considere a ajuda ou a emergência em função de quem põe à disposição os recursos ou de elite que existem entre os beneficiários”.
Bento XVI também alertou contra o perigo de considerar a fome como um fenômeno “estrutural, parte integrante da realidade sociopolítica dos países mais fracos, objeto de um senso de resignada amargura, quando não de indiferença. (...) Não é assim nem deve ser assim! Para combater e vencer a fome, é essencial começar por redefinir os conceitos e os princípios aplicados até hoje nas relações internacionais”.
Traumatiza-nos as frias críticas dos que insistem em transferir a culpa de um para outro, retardando uma ação mais eficaz. Enquanto isso, morrem de inanição filhos de Deus, irmãos nossos, e, entre eles, crianças inocentes que sucumbem. Para quem desconhece o escândalo da pobreza e não sente na carne o aguilhão da fome ou ignora a diferença entre a criatura humana e os irracionais, é fácil optar por soluções cômodas, aquém das verdadeiras causas do flagelo, que já atinge mais de 1,2 bilhão de pessoas.
Continuando o seu discurso, o Papa pediu que não se esquecessem “dos direitos fundamentais das pessoas, entre os quais se destaca o direito a uma alimentação suficiente, saudável e nutritiva, e o direito à água”. Para a consecução desse objetivo, Bento XVI cita a sua Encíclica “Caritas in veritate”, reconhecendo que é necessário “enfrentar o problema eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agrícola por meio de investimentos em infra-estruturas rurais, sistemas de irrigação, transportes, organização dos mercados, formação e difusão de técnicas agrícolas apropriadas capazes de utilizar o melhor possível os recursos humanos, naturais e socioeconômicos mais acessíveis, para garantir a sua manutenção a longo prazo” (n. 27).
A presença do Papa na abertura da Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar é fortalecida pela missão pastoral que lhe foi confiada e quer constituir um apelo premente aos membros da Igreja e a toda a humanidade.
Tenho certeza que estas considerações encontrarão eco em muitos corações e em consciências bem formadas, convictas da solidariedade com os necessitados. O efeito será uma espécie de multiplicação dos pães por um milagre do amor fraterno.
“Hoje, a Igreja faz-se eco do apelo que Deus dirige a Caim, quando lhe pede contas da vida do seu irmão Abel: ‘Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim (...)’ (Gn 4,10). Aplicar estas duras palavras, quase insuportáveis, à situação dos nossos contemporâneos que morrem de fome não é um exagero injusto ou agressivo: elas demonstram uma prioridade e desejam sensibilizar a nossa consciência”. Esta admoestação está contida no documento preparado pelo Pontifício Conselho "Cor Unum", a 4 de outubro de 1996.
Que Deus desperte o sentimento da responsabilidade de todos diante de um escândalo que não pode mais ocultar-se sob os véus dos eufemismos.
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