Publicado por Tht em 09/1/2010 (357 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
A propósito do encontro com os bispos brasileiros do Regional Nordeste II em visita "Ad Limina", a 17 de setembro de 2009, o Santo Padre Bento XVI dirigiu as seguintes palavras: "É na diversidade essencial entre sacerdócio ministerial e sacerdócio comum que se entende a identidade específica dos fiéis ordenados e leigos (...). Nessa perspectiva, portanto, os fiéis leigos devem empenhar-se em exprimir na realidade, inclusive através do empenho político, a visão antropológica cristã e a doutrina social da Igreja".
A temática abordada pelo Papa Bento XVI recorda um importante documento sobre a “Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo”. Trata-se da Exortação Apostólica Pós-sinodal “Christifidelis Laici”, publicada a 30 de dezembro de 1988.
Em meio à crise generalizada e o indiferentismo religioso hoje reinante, paira Jesus Cristo, a esperança da humanidade. E o leigo possui "lugar original e insubstituível: por meio dele a Igreja torna-se presente nos mais diversos setores do mundo" (n.7).
No capítulo I, sob o título: "Eu sou a videira e vós os ramos", o Santo Padre expõe os aspectos teológicos da dignidade do laicato. Este integra a vinha, que simboliza o próprio Cristo. Ocorre o mesmo com as pessoas consagradas. Diferem apenas no modo, mas todos formam um só corpo e assumem, embora em áreas diferentes, a mesma responsabilidade que nasce dessa inserção. Assim, Deus "confiou o mundo aos homens e às mulheres para (...) libertarem a mesma criação da influência do pecado e santificarem a si mesmos no matrimônio ou na vida celibatária, na família, no emprego e nas várias atividades sociais" (n.15). O documento se estende, nesta parte, dada a importância da santidade na vida e na ação dos fiéis.
O capítulo II, "Todos, ramos da única videira", aborda a variedade e a multiplicidade de atuação do fiel leigo, "sobre sua missão e responsabilidade na Igreja e no mundo" (n.18). Entre os bens inerentes à comunhão orgânica, na diversidade e complementariedade "sobressai a graça dos Apóstolos, a cuja autoridade o mesmo Espírito submete também os carismáticos (cf.1Cor14)"(n.20). Esta expressão paulina, "carismáticos", significa pessoas que recebem dons gratuitos do Senhor para o serviço da comunidade.
Esta atividade de ministros sagrados e de leigos, unidos no mesmo Cristo, vem de raízes diferentes: os primeiros, do Sacramento da Ordem e os demais, do Batismo e Confirmação. Não se confundem, mas se integram (n.23).
No capítulo III, que se intitula "Constituí-vos para irdes e dardes frutos", a Exortação trata da corresponsabilidade dos fiéis leigos na Igreja-Missão. Podemos resumir esse aspecto da vida religiosa laical na seguinte frase: "Os fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja, têm por vocação e por missão anunciar o Evangelho" (n.33). Esse dever se apresenta mais urgente em nossos dias, quando multidões se afastam de Cristo e há nações onde seu anúncio é interditado.
A vastidão dessa tarefa no mundo de hoje está embasada em um fato doloroso, mas comum entre nós: a separação entre a Fé e a vida. Cremos em uma Doutrina, mas nossos atos não refletem nossa crença. Diz a Exortação referindo-se à nova evangelização: "Será isso possível, se os fiéis leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana atividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra a inspiração e força para se realizar em plenitude" (n.34).
Esse trabalho missionário se exerce no campo da família, da caridade, da participação na política, na vida econômico-social, na cultura e nos meios de comunicação. Imenso e admirável esse desafio à consciência dos fiéis.
O capítulo IV tem por título "Os trabalhadores da vinha do Senhor". O Santo Padre chama toda a imensa variedade, segundo vocações diversas, dos que compõem a comunidade universal dos leigos para a tarefa que nos foi confiada.
Dá a prioridade aos jovens, pois eles "constituem uma força excepcional e são um grande desafio para o futuro da Igreja" (n.46). As crianças têm seu lugar nesta grandiosa atuação da Igreja. Os·idosos são relembrados, pois devem ter o dom da sabedoria. As mulheres merecem atenção especial num dúplice objetivo: "O indispensável contributo da mulher na edificação da Igreja e do progresso da sociedade; e (...) acerca da sua participação na vida e na missão da Igreja" (n.49).
Os doentes e atribulados, os diversos estados de vida e as vocações diversas estão incluídos entre os trabalhadores da vinha, idéia mestra que percorre todo o documento.
A preocupação com a formação dos leigos para que deem mais frutos em seus labores apostólicos, ocupa o capítulo V. O apelo à oração conclui esse precioso documento pontifício.
A riqueza que nos é oferecida pela Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Christifideles Laici", em outras palavras, convida os leigos a compreenderem sua missão para amar o serviço que poderão prestar a Cristo em nossos dias.
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