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Por que a família?
Publicado por Marcia em 10/5/2008 (4183 leituras)
Por que a família?
Sem família não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. É a família que nos humaniza e é nela que realizamos o ato mais fundamental da nossa condição: a entrega.

PARA AMAR MAIS..., SER MELHOR

Há alguns meses dei uma conferência para um grupo bastante seleto de empresários: um grupo bem internacional... e bem atípico. Tão atípico que me pediram – na qualidade de empresários: o único fator que os unia – que lhes falasse do amor conjugal.

Quando terminei, um mexicano começou a dizer umas coisas que eu não sabia se eram perguntas ou reflexões em público:

– Se não entendi mal, a qualidade do amor entre os esposos não se decide somente dentro do matrimônio. Quem queira amar de verdade tem de esforçar-se por melhorar em toda a vida.

Um sexto sentido fez-me conter a vontade de responder e fiquei em silêncio. E ele de fato prosseguiu:

– Só através da minha melhora pessoal poderei amar mais a minha mulher, pois terei muito mais para dar-lhe cada vez que me entregue a ela.

Resisti de novo à tentação de intervir. Ele acrescentou:

– Além disso, pressinto que estarei desperdiçando esse auto-aperfeiçoamento se eu não o encaminhar para a entrega. E parece-me que isso constitui um claro dever: quanto mais eu melhorar, mais obrigado estarei a dar-me à minha mulher e aos meus filhos.

O silêncio tornou-se mais denso, talvez porque nem ele nem os outros que estavam ouvindo – todos dedicados de corpo e alma aos negócios – se atreviam a tirar a conclusão inevitável. Mas por fim ele a tirou:

– Isso significa, portanto, que a minha realização mais verdadeira e mais radical, não vou encontrá-la na empresa, mas na minha família.



UM INVESTIMENTO DEFINITIVO
Aquele era um homem audaz e, além disso, agudo. Sabia o que estava pondo em jogo, e sabia do que estava falando: da necessidade de modificar profundamente o modo de entender e de viver as relações entre a família e a pessoa (e, conseqüentemente, muitas outras relações, como as propriamente empresariais).

Durante muito tempo, a necessidade da família foi explicada – embora não exclusivamente – enfatizando a múltipla e clara precariedade do homem no que diz respeito à sua sobrevivência. Dizia-se que os instintos permitem que os animais sejam independentes desde muito cedo, enquanto uma criança humana morre inevitavelmente quando abandonada aos seus próprios recursos. Aduziam-se também razões psicológicas, como a ineludível conveniência de evitar a solidão e de distribuir as funções em casa, no trabalho ou nos âmbitos do saber, garantindo uma eficácia maior...

Tudo isso parece-me certo, mas penso que não atinge o núcleo da questão. Se desde a Antigüidade o homem foi considerado como o que há de mais perfeito na Natureza (perfectissimum in tota natura) e se hoje é difícil falar do ser humano sem ressaltar a sua dignidade e a sua grandeza, não é estranho que os animais não precisem de família, mas que ela seja imprescindível ao homem justamente (ou somente ou principalmente) em função da sua fragilidade em comparação com eles?

A mudança radical de perspectiva que proponho com estas linhas é que toda pessoa precisa de uma família, justamente em virtude da sua eminência ou valia: daquilo que em termos metafísicos poderia ser chamado de sua abundância de ser.



UM SER-PARA-O-AMOR
É por isso que a pessoa está chamada a entregar-se. É por isso que a pessoa pode ser definida como princípio (e termo) do amor..., sendo a entrega o ato com que esse amor culmina.

As plantas e os animais, pela sua própria escassez de “ser”, agem quase exclusivamente para garantir a sua própria sobrevivência e a da sua espécie. Porque possuem pouco ser – poderíamos dizer –, têm que dirigir toda a sua atividade para conservá-lo e protegê-lo: fecham-se em si mesmos ou na espécie que lhes é própria.

A pessoa, pelo contrário, “tem ser de sobra”, justamente por causa da nobreza que a sua condição implica. Daí que a sua operação mais própria, precisamente enquanto pessoa, consista em entregar-se, em amar. (E é por isso que só quando ama a sério e se entrega sem medida – “a medida do amor é amar sem medida” – alcança a felicidade.)



A PESSOA COMO DÁDIVA
Nisto o meu amigo mexicano tinha razão. E também em unir essa exigência de entrega com a família. Porque, para que alguém possa dar-se, é preciso que haja uma outra realidade capaz de recebê-lo e disposta a isso, ou melhor, disposta a aceitá-lo livremente. Tal aceitação só pode ser a aceitação de outro “alguém”, de outra pessoa.

Costumo explicar que a grandeza da nossa condição de pessoas é de tal ordem – apesar da consciência que às vezes temos da nossa pequenez e da ruindade de alguns dos nossos pensamentos e ações – que nenhuma dádiva é suficientemente digna de nós..., exceto outra pessoa. Qualquer outra realidade, mesmo o trabalho ou a obra de arte mais excelsa, acaba por ser insuficiente para acolher a sublimidade ligada à condição pessoal: não pode ser o “veículo” da minha pessoa e nem tampouco está à altura daquela pessoa a quem pretendo entregar-me.

Daí que a dádiva, independentemente de qualquer valor material que possa ter, só consiga cumprir o seu papel na medida em que me comprometo – me “integro” – nela. (“Presente, dom, entrega? / Símbolo puro, sinal / de que eu me quero dar”, escreveu magistralmente Salinas) (1).

Mas eu dizia que além de ser capaz, a outra pessoa tem de estar disposta a acolher-me de maneira incondicional: do contrário, a minha entrega não passaria de mera ilusão, de uma espécie de aborto. Se não há aceitação, é impossível que eu me entregue, por mais que me empenhe (actio est in passo, poder-se-ia afirmar, glosando Aristóteles: o ato de entrega “é” – cumpre-se, atualiza-se – na medida em que o outro me aceita com gosto).



O PORQUÊ DA FAMÍLIA
Pois bem, o âmbito natural em que o ser humano é acolhido sem reservas, pelo mero fato de ser pessoa, é justamente a família. Em qualquer outra instituição (numa empresa, por exemplo), é legítimo e às vezes até necessário avaliar se tenho determinadas qualidades ou aptidões, e o fato de eu eventualmente ser rejeitado por carecer delas não afeta de modo algum a minha dignidade (o igualitarismo que hoje alguns tentam impor a fim de “evitar a discriminação” é radicalmente injusto nesse ponto).

Mas uma família genuína, pelo contrário, quando aceita cada um dos seus membros levando em conta a sua condição de pessoas – da mesma forma que as outras instituições o fazem (daí o famoso preceito kantiano de “tratar sempre o outro como pessoa”) –, não acrescenta mais nada: o fato de serem pessoas já é o bastante. Ao acolher assim os seus membros, permite que se entreguem e se desenvolvam como pessoas.

Por isso pode-se afirmar que, sem família, não se pode ser pessoa, ou pelo menos uma pessoa completa, plenamente feita. E isso, segundo o que acabo de sugerir, não se deve primariamente a nenhuma carência, mas ao contrário: deve-se ao nosso próprio excesso, que nos “obriga” à entrega de nós mesmos, sob pena de ficarmos frustrados por não termos conseguido levar a cabo o que a nossa natureza e o nosso ser exigem.

Penso que essa inversão de perspectiva (que não nega a verdade do ponto de vista complementar) tem muitas implicações e conseqüências.

No âmbito doméstico, por exemplo, explica por que a família não é uma instituição “inventada” para socorro dos fracos e dos desvalidos (crianças, doentes, anciãos). Muito pelo contrário: quanto mais perfeição um ser humano alcança, quanto mais maduro é um pai ou uma mãe, mais precisa da família, justamente para crescer como pessoa, dando-se e sendo aceito, amando..., e além disso com a guarda baixa, sem ter de “demonstrar” nada para ser querido.



UMA BOA TEORIA... PARA UMA VIDA BOA
Por outro lado, essa forma de compreender a pessoa repercute no modo de legislar, na política, no trabalho... Só tendo em conta a grandeza impressionante do ser humano é que se poderão estabelecer as condições que lhe permitam um desenvolvimento adequado e a felicidade.

É freqüente ouvir que o problema do homem de hoje é o seu orgulho de querer ser como Deus. Não o nego. Mas penso que é mais profunda a afirmação oposta: a grande deficiência do homem contemporâneo é a sua falta de consciência da própria valia, que o leva a desprezar-se a si mesmo e a tratar os outros de maneira absurdamente infra-humana.

Schelling afirmava que “o homem torna-se maior na medida em que se conhece a si mesmo e conhece a sua própria força”. E acrescentava: “Dai ao homem a consciência do que efetivamente ele é, e imediatamente aprenderá a ser o que deve; respeitai-o teoricamente, e o respeito prático será uma conseqüência imediata”. E concluía: “O homem deve ser bom teoricamente, para que possa sê-lo também na prática”.

Exageros de um jovem escritor? Penso que não, se entendermos de modo adequado que esse conhecer não é simplesmente saber, mas algo que só se sabe quando se torna vida da própria vida.

Como queria Aristóteles, a teoria – encaminhada para o amor! – tem uma prioridade absoluta nos assuntos estritamente humanos.



“MINI-PESSOAS” QUE NÃO CONHECEM NEM AMAM
O modelo de homem que preside a boa parte das Constituições dos países “desenvolvidos” acaba por ser o de uma espécie de mini-homem, pessoa reduzida, quase deformada.

Quero dizer que, com uma freqüência maior do que o desejável, são negados ao homem de hoje – na teoria e na vida: na legislação e na estrutura social – justamente aquelas características que definem a grandeza da sua humanidade, como, por exemplo, a sua capacidade de conhecer, que apesar de imperfeita é real.

Deste ponto de vista, uma estruturação jurídica autêntica deveria ter como base, além do reconhecimento da limitação do entendimento humano, a convicção ainda mais forte de que a realidade é cognoscível. Por isso, deveria estar baseada no autêntico diálogo entre cidadãos que estariam convencidos de que a soma das contribuições de muitos podem chegar a descobrir o que cada realidade efetivamente é, e portanto qual o comportamento que ela exige.

Pelo contrário, muitos dos atuais regimes políticos parecem estar baseados num relativismo cético, na convicção quase contraditória de que a realidade não pode ser conhecida, no recurso à mera maioria e, junto a ela (enquanto não se corrija essa visão, que pode e deve ser corrigida), no mais tirânico e sutil dos totalitarismos.

Mais exemplos disto que acabo de qualificar como modelo “quase-institucional” de mini-pessoa?

Para alguns, é quase inconcebível que o homem atual possa amar de verdade, com um compromisso para toda a vida, arriscando em uma só cartada, como disse Gregório Marañon, o porvir do próprio coração (daí a multiplicação das leis que admitem o divórcio, impedindo que alguém se case para a vida toda).

Também não se admite que alguém possa dar um sentido à dor, não por masoquismo, mas porque o sofrimento é parte integrante da vida do Homem. Além disso, quando se procura afastá-lo visceral e obsessivamente, suprime-se juntamente com ele a própria vida humana, cujo núcleo mais nobre consiste na sua capacidade de amar... Nesta vida, o sofrimento é parte inseparável do amor: quem negue a qualquer custo o “direito” de padecer, invalida simultaneamente a possibilidade de amar de verdade.

No fim das contas, se nos limitarmos ao modelo subjacente a muitas das Constituições ocidentais, o homem de hoje estará entorpecido no uso dos seus atributos mais característicos e enobrecedores: (1) conhecer a verdade e (2) amar e fazer o bem, com tudo aquilo que cada um desses aspectos (e a conjunção de ambos) traz consigo.



CONCLUSÃO
O que acabo de apontar reforça três das minhas mais arraigadas convicções:

– A primeira, uma fé absoluta no ser humano, na sua capacidade de retificar o rumo e de superar-se a si mesmo. Não se deve confundir diagnóstico com terapia. Do mesmo modo que a Filosofia, um diagnóstico não deve ser nunca otimista nem pessimista; não deve ser nem interessante nem desprezível; nem lucrativo nem descartável: deve simplesmente ser verdadeiro ou falso. Quanto mal não faria o “otimismo” de diagnosticar como sendo uma simples dor de cabeça o que na verdade é um tumor cerebral maligno!

– Em segundo lugar, que o homem atual tem de dar-se conta de como é grande é a sua dignidade, a fim de poder agir de acordo com ela... e alcançar a própria perfeição e a alegria que dela decorre.

– Por fim, que o “lugar natural” para “aprender a ser pessoa” – o único verdadeiramente imprescindível e suficiente – é a família. Não só para a criança, mas também para o adolescente que parece negá-la, para o jovem que tem diante de si um deslumbrante leque de possibilidades, para o adulto na plenitude das suas faculdades, para o ancião que parece declinar... Todos eles forjam e revitalizam a sua índole pessoal, dia após dia, no seio do seu lar.

E assim, temperados e reconstituídos, são capazes de converter o mundo, de humanizá-lo.

Por isso a família.

(1) ¿Regalo, don, entrega? / Símbolo puro, signo / de que me quiero dar. Pedro Salinas (1892-1951), poeta, tradutor, dramaturgo e professor universitário espanhol. A poesia de Salinas é marcada por um ardente desejo de comunhão, tanto entre as pessoas como entre o corpo e a alma de cada indivíduo. Publicou diversas obras, entre as quais Presagios (1923; poesia), La voz a ti debida (1933; poesia) e o volume de ensaios El defensor (1948).


Tomás Melendo - Catedrático de Filosofia e Diretor dos Estudos Universitários sobre a Família da Universidade de Málaga (Espanha)


Fonte: Quadrante
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