Publicado por Tht em 18/9/2010 (1104 leituras)
Dom Eugenio de Araujo SalesCardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro
Ao retomarmos nossas reflexões sobre os documentos da Igreja, recordo hoje uma breve Carta Encíclica, cujo tema era o Espírito Santo, publicada a 18 de maio de 1986, pelo Papa João Paulo II. Em 1980, havia publicado uma outra, "Dives in Misericordia" ("Rico em Misericórdia"); no ano anterior, a "Redemptor Hominis" ("Redentor do Homem"), sobre Jesus Cristo. Conforme ele mesmo disse, as três formam uma trilogia dedicada à Santíssima Trindade. Abordaremos cada uma delas.
Os ensinamentos pontifícios são ministrados aos fiéis de modo variado e em diferentes níveis, quanto à importância do conteúdo. Um deles leva o nome de encíclica e goza de particular relevância. A primeira data de 1740, a “Ubi Primum”, de Bento XIV. Umas são doutrinárias; outras, mais exortativas. A 280ª pode ser incluída nessas duas categorias e o resumo dela traduz-se bem pelo título: Carta Encíclica “Dominum et Vivificantem”, sobre o “Espírito Santo”, que dá vida à Igreja e ao mundo.
Perpassa-lhe as páginas a extraordinária influência do Paráclito na vida da Igreja, nesses mais de dois mil anos de atividade redentora em favor da Humanidade. De par com os aspectos positivos, leva-nos a examinar nossas infidelidades nesse largo período de tempo, desde Sua vinda no Cenáculo até nossa época.
Convida-nos a “meditar no mistério de Deus uno e trino que, em si mesmo, é absolutamente transcendente em relação ao mundo, de modo especial em relação ao mundo visível; é, na realidade, Espírito absoluto: ‘Deus é Espírito’ (Jo 4,24). Mas, simultaneamente e de modo admirável, não só está próximo deste mundo, mas está aí presente e, em certo sentido, imanente, compenetra-o e vivifica-o por dentro. Isto é válido, em especial, quanto ao homem: Deus está no íntimo do seu ser (...). Só o Espírito pode ser a tal ponto imanente ao homem e ao mundo, permanecendo inviolável e imutável a sua transcendência absoluta” (“Dominum et Vivificantem”, nº 54).
Na introdução, o documento lembra as palavras do Papa Paulo VI, em junho de 1973, sobre o incremento do culto ao Espírito Santo “como complemento indispensável do ensino conciliar” (idem, nº2). “A Igreja responde também a certos apelos profundos, que julga ler nos corações dos homens de hoje: uma nova descoberta de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito” (idem). Assim, podemos entender a importância desta Encíclica. Ela sublinha o valor religioso do esforço humano. Os que não têm Fé avaliam o procedimento dos cristãos pela sua participação no desenvolvimento material, no combate à fome, às injustiças sociais, em prol dos direitos da pessoa. Contudo, alcance muito maior se constata em tudo que é realizado em favor do aspecto espiritual. Aliás, tal atitude não menospreza a solução dos problemas imediatos que nos afligem. O Papa João Paulo II, com a “Dominum et Vivificantem”, atinge também a causa desses males. Contribui, assim, de maneira mais eficaz na correção dos flagelos da Humanidade do que se abordasse apenas os efeitos do pecado.
A primeira parte da Encíclica se intitula: “O Espírito do Pai e do Filho dado à Igreja”. Por isso, a Igreja pode conservar sempre intacta a verdade que os Apóstolos aprenderam de seu Mestre (nº 4). Somente assim “introduz-se o homem oportunamente na realidade do mistério revelado” (nº 6).
Neste capítulo, acompanhamos o desabrochar da Revelação divina sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, da Criação aos ensinamentos de Jesus e à manifestação do Paráclito, após a Ascensão. Com a vinda deste, tem início a história da Igreja. E Ele é a garantia de sua perenidade (nº 26).
A segunda parte traz por título: “O Espírito que convence o mundo quanto ao pecado”.
Chamado à existência, o ser humano é mera criatura e, como tal, depende do Criador. Transgredir os limites estabelecidos por Ele constitui desobediência ao Senhor e uma agressão ao indivíduo, isto numa perspectiva transcendental. Tudo ocorreu em nossas origens e se repete na vida de cada um. “Deus permanece a primeira e soberana fonte para decidir sobre o bem e o mal (...) e o Espírito é para o homem a luz da consciência e a fonte da ordem moral” (nº 36). “E o faz reconhecer o mal cometido, orientando-o (...) ao mesmo tempo para o bem que se completa pela conversão” (nº 42). E acrescenta a Encíclica: “A consciência, portanto, não é uma fonte autônoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente um princípio de obediência relacionado com a norma objetiva” (nº 43). O Espírito da verdade, ao permitir a dor do remorso, torna-a salvífica, quando, por um ato de contrição perfeita, opera a conversão perfeita.
O terceiro capítulo aborda o tema: “O Espírito que dá a vida”. Nesse sentido, a contribuição divino-humana da Igreja, vivificada pelo Espírito, assim como sua missão, também se fundamenta n’Ele. E, mediante a Eucaristia, a unidade tão desejada recebe o indispensável alimento.
Vejo este documento como fator muito eficaz na luta que travam os cristãos. Inseridos em um mundo atribulado, no qual impera nítida inversão de valores, as considerações sobre o Espírito Santo desfrutam de particular importância. Levam-nos ao aperfeiçoamento de nossa prática religiosa e fortalecem os fiéis nos embates frente a uma mentalidade pagã reinante na sociedade.
Peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine a professar a doutrina do Senhor, mesmo à custa de sacrifícios e incompreensões.
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