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A Morte de Deus
Publicado por Ceslcroma em 15/4/2011 (1121 leituras)
A Morte de Deus
Anthony Queirós, LC

Deus morreu. E o homem o matou. Estas palavras pairam sombriamente na história do homem, desde que foram lapidadas por Nietzsche. Surgiram como um brado de revolta da criatura cheia de si mesma, proclamando já não precisar mais de deuses. Não demoraram, contudo, a tornar-se uma legenda desesperada do homem. Aterrorizado, por descobrir sua própria maldade, já não tem a quem recorrer. Permaneceram sempre um signo de radical separação e negação de toda transcendência.

Paradoxalmente, estas palavras, em seu sentido original, são palavras de salvação. Centenas de anos antes de ressoarem na pena do filósofo alemão, já se espalhavam como raios de luz pelo mundo. Era a pregação dos primeiros cristãos. E na Semana Santa, sobretudo na Sexta-Feira da Paixão, voltam a ressoar com toda sua força na liturgia da Igreja. O Filho de Deus foi crucificado. E nós, os homens, por nossos pecados, O matamos. Esta proclamação é o cerne do Cristianismo.

Qual a diferença entre a pregação do autor de “o Anticristo” e a de São Pedro à multidão em Jerusalém? Por que as mesmas palavras geraram Auschwitz e levaram São Maximiliano Kolbe a oferecer sua vida neste lugar por um prisioneiro que mal conhecia? Por que inspiraram o Comunismo em sua guerra contra Deus, e a vida religiosa da Igreja com seus multiformes benefícios para o mundo? Como podem estar por trás da sociedade da indiferença e da obra da Madre Teresa de Calcutá?

Para o mundo moderno, a morte de Deus é a expressão do “amor de si mesmo até o desprezo de Deus”. É o que Santo Agostinho aponta como distintivo da “cidade dos homens”. Por ela, ignoram seu primeiro princípio e fim último. Ignoram seus semelhantes, a sociedade na qual vivem e toda a lei moral. Cada ser humano se torna única medida de seus atos. Mas descobre depois, aterrado, que não é capaz de sê-lo.

No monte Calvário, pelo contrário, a morte de Deus é prova definitiva de sua doação. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. É a abertura total, a caridade que jamais acaba e busca mesmo aqueles que O crucificam. A verdadeira morte de Deus é a única redenção possível para o mundo. Quer este se afane ou se desespere por ter matado Deus.

Uma última diferença entre as mesmas palavras salta-nos ainda aos olhos, como a luz radiante de um domingo único. O Domingo da Ressurreição. A Igreja repete com o mundo que Deus morreu e os homens o mataram. Mas seu anúncio não se encerra com estas palavras. De suas catedrais, mosteiros e obras de caridade ecoa por todos os séculos, inclusive neste nosso, obscuro e chagado, um anúncio de esperança. Da vida de cada cristão, se ouve aquele exultante verso do Credo: “E ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras”. A morte não tem a última palavra, nem sequer a morte de Deus. Por que o túmulo está vazio!
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