Publicado por Licapires em 16/3/2011 (2920 leituras)
Elisa Tavares Pires
Um sermão é uma peça de oratória, um texto em prosa, um discurso importante, longo e demoradamente elaborado, tendo como objetivo a propaganda e edificação religiosa. Esta modalidade literária faz parte da oratória, isto é, a prática ou arte de bem dizer, explorando os recursos verbais com vistas a ensinar, persuadir e comover. O bom orador necessita de memória, sensibilidade, inteligência, voz, gestos e porte.
A fim de melhor compreendermos o discurso argumentativo vieiriano no “Sermão da Sexagésima”, devemos apresentar algumas circunstâncias ligadas à escrita desse texto, levando em conta não só o fator linguístico, mas também alguns extralinguísticos, ou seja, o contexto em que foi produzido.
Para isso, é preciso saber quem foi Padre Antonio Vieira. Nascido em Lisboa em 1608, Vieira veio para o Brasil ainda criança, em 1615, instalando-se com a família em Salvador. Seu destino na Bahia foi o Colégio dos Padres Jesuítas. De acordo com Clóvis Bulcão em seu livro Padre Antônio Vieira – um esboço biográfico , nos primeiros anos, por mais que se dedicasse, era um aluno apenas mediano, sem conseguir um bom rendimento (p.27). Ainda de acordo com o historiador, após um estalo, seguido de uma forte dor de cabeça, Vieira tornou-se um dos estudantes mais capazes do colégio. Com o sucesso acadêmico, veio a vontade de entrar para a Companhia de Jesus.
Toda a obra de Vieira, seus planos e sua visão política se baseavam na Bíblia. O novo mundo passa a ser encarado como o destino das frotas do rei Salomão. Por isso era tão importante preservar os índios do massacre dos colonos portugueses.
Quando vai morar em Portugal, em 1641, torna-se extremamente popular. As igrejas em que pregava ficavam lotadas e as pessoas extasiavam-se com seus sermões. Porém, desgostoso do rumo político que Portugal havia tomado regressa ao Brasil alguns anos mais tarde.
Na época da restauração portuguesa com D. João IV, em 1640, partiu da Bahia para Portugal e durante 13 anos atuou como uma espécie de ministro de extrema confiança junto a El-Rei, tendo desempenhado diversas funções políticas e diplomáticas na Europa.
O Sermão da Sexagésima , portanto, foi pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, a um auditório constituído em sua maioria por pregadores dominicanos, adversários filosóficos dos pregadores jesuítas. O objetivo principal do sermão era, portanto, atingir os provisores do Santo Ofício, que tanto perseguiam o próprio Vieira e que eram pregadores de estilo rebuscado complexo, o que dificultava o entendimento por parte dos ouvintes.
A referência procede. Sabe-se que o Barroco tinha como missão expandir a fé cristã católica e repreender todo tipo de heresia. Dessa forma, esperava-se que os pregadores fossem capazes de ensinar e converter as pessoas. Entretanto, o que estava acontecendo não era isso. A verdadeira finalidade a que se destinava a pregação, isto é, admoestar, ensinar e converter as pessoas, vinha se desvirtuando do púlpito para uma manifestação exterior e mais festiva de culto (algo bastante semelhante ao que vem ocorrendo em algumas igrejas hoje em dia).
É preciso perceber aqui que, na época, em Portugal, em pleno apogeu do Barroco, o sermão religioso havia tornado-se um dos maiores espetáculos artísticos e literários, constituindo-se “uma atividade especial no quadro das atividades religiosas” .
Convivendo com a cultura artística do Barroco, o trabalho de Vieira não poderia deixar de apresentar marcas deste estilo de época, embora com traços bastante peculiares. O que é necessário perceber é que no Sermão da Sexagésima, Vieira critica os exageros do Barroco e também os culpa pelo insucesso das prédicas, afirmando que a responsabilidade pela não frutificação da palavra de Deus está também nos pregadores presos à forma e ao estilo rebuscado e de difícil compreensão; aos que não pregam com o uso da razão e dos exemplos; e aos que privilegiam a vaidade ao arrazoamento no uso da palavra.
O Sermão da Sexagésima
Sabemos claramente que o Sermão da Sexagésima é, sim, um excelente exemplo do conceptismo barroco, mas não apenas isso. Apesar de ser um texto suposto literário, pode e deve ser explorado pelo viés das estratégias argumentativas.
De acordo com Guaranha, Vieira acredita que o texto bíblico, por ter sido inspirado por Deus, é a prefiguração de todas as verdades. Para ele, cada fragmento da Bíblia contém um mistério a ser decifrado. Para isso, desenvolve procedimentos de análise textual. Por meio desses procedimentos, o orador deveria levantar os mistérios contidos nessas particularidades com engenho, partindo dos pressupostos de que há uma relação não-convencional entre a palavra e a coisa significada e que ela contém um mais do que podemos enxergar na superfície.
Está claro que o Sermão da Sexagésima tem como objetivo convencer um público específico de que a palavra de Deus não frutifica por culpa dos pregadores, além de levar seus interlocutores a determinados tipos de comportamento, atuando sobre eles de maneira incisiva no que concerne à fecundidade das palavras proferidas.
“Sexagésima” é considerado o mais importante sermão vieriano. Como foi pregado na Capela Real, em Portugal, podemos concluir que o auditório era particular, composto por católicos da nobreza portuguesa da época. Vieira procura se aproximar do auditório dirigindo-lhe perguntas que ele mesmo, o autor, responde, procurando obter com o isso a adesão do auditório à sua tese principal de que se não havia conversões em massa ao catolicismo na sua época isso ocorria por culpa dos pregadores de então.
Ao analisarmos o Sermão da sexagésima, percebemos Vieira como grande usuário de seu aparato linguístico, em prol da conversão, não só dos gentios, mas também dos próprios pregadores de seu tempo. Ao proferir um sermão metalinguístico, Vieira propõe que a arte de pregar deve ter como objetivo principal a semeadura e a colheita, a persuasão, o convencimento e, principalmente, a salvação das almas. A escolha cuidadosa de termos e a explicação minuciosa de tais escolhas nos apresentam um exímio orador, de linguagem clara, extremamente fervoroso, que tinha na palavra de Deus sua matéria prima. Nele, o projeto político não era dissociado do religioso e a Palavra era o principal instrumento para a concretização desse propósito. “A palavra é divina e Deus está na palavra” (Carvalho 2000: 131).
O tema do Sermão da Sexagésima é a “Parábola do semeador”, tirada do Evangelho segundo São Lucas: Semen est verbum Dei. Neste sermão, o Padre Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Traçando paralelos entre a parábola bíblica sobre o semeador que semeou nas pedras, nos espinhos (onde o trigo frutificou e morreu), na estrada (onde não frutificou) e na terra (que deu frutos), Vieira critica o estilo de outros pregadores contemporâneos seus (e que muito bem caberia atualmente), que pregavam mal, sobre vários assuntos ao mesmo tempo (o que resultava em pregar em nenhum), ineficazmente e agradavam aos homens ao invés de pregar servindo a Deus.
Vieira estava interessando em saber o motivo de a pregação católica estar surtindo pouco efeito entre os cristãos.
Sendo a palavra de Deus tão eficaz e tão poderosa, pergunta ele, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Depois de muito argumentar, conclui que a culpa é dos próprios padres. Eles pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus, afirma. Dito de outra maneira, o jesuíta reclama daqueles que torcem o texto da Bíblia para defender interesses mundanos. Ocorrem-me aqui diversos exemplos, os quais nem precisam ser enumerados. Todos sabemos muito bem com que frequência isso acontece em nossos dias e desde aquela época vem se proliferando a um ritmo assustador.
É interessante notar que, num primeiro nível de leitura, o discurso de Vieira parece ser, na maioria das vezes, monológico. Tem-se a impressão de que, mesmo quando ele faz perguntas ao público, são perguntas retóricas, vazias. Contudo, ao observarmos mais atentamente, iremos perceber a existência de uma interlocução inerente ao sermão; essa dialogia está ligada ao fato de que ele – como toda argumentação – visa a uma mudança, aspira a criar ou a aumentar o assentimento da plateia à tese proposta. O persuadido, ao dar seu assentimento, muda de atitude, modifica seus valores. E essa mudança está diretamente relacionada à ação. Todo o discurso do jesuíta português está centrado no leitor e no auditório e, em última instância, volta-se para o exercício de convencer o ouvinte a adotar a doutrina pregada. Não por acaso, o interlocutor é aquele que deve captar uma verdade absoluta, impessoal, universal, acima de quaisquer circunstâncias. E mais: para conhecer o mundo, é preciso conhecer o texto divino porque o mundo profano é um conjunto enigmático e duro. A chave para a correta decifração do mundo está na leitura da Bíblia, que só pode ser efetuada de maneira clara e certeira pelo sacerdote, apoiado no Magistério da Santa Igreja.
Podemos concluir, outrossim, que Vieira fez um grande bem à língua portuguesa, deixando como herança uma profícua produção textual, tanto de caráter retórico quanto religioso, profético, literário e político, produzindo na nossa língua como se essa fosse a língua na qual Deus desejava ouvir sua Palavra e ver ação desta mesma Palavra nos homens.
Estamos às portas da Quaresma [...] Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados [...].
(X:174)
Um sermão é uma peça de oratória, um texto em prosa, um discurso importante, longo e demoradamente elaborado, tendo como objetivo a propaganda e edificação religiosa. Esta modalidade literária faz parte da oratória, isto é, a prática ou arte de bem dizer, explorando os recursos verbais com vistas a ensinar, persuadir e comover. O bom orador necessita de memória, sensibilidade, inteligência, voz, gestos e porte.
A fim de melhor compreendermos o discurso argumentativo vieiriano no “Sermão da Sexagésima”, devemos apresentar algumas circunstâncias ligadas à escrita desse texto, levando em conta não só o fator linguístico, mas também alguns extralinguísticos, ou seja, o contexto em que foi produzido.
Para isso, é preciso saber quem foi Padre Antonio Vieira. Nascido em Lisboa em 1608, Vieira veio para o Brasil ainda criança, em 1615, instalando-se com a família em Salvador. Seu destino na Bahia foi o Colégio dos Padres Jesuítas. De acordo com Clóvis Bulcão em seu livro Padre Antônio Vieira – um esboço biográfico , nos primeiros anos, por mais que se dedicasse, era um aluno apenas mediano, sem conseguir um bom rendimento (p.27). Ainda de acordo com o historiador, após um estalo, seguido de uma forte dor de cabeça, Vieira tornou-se um dos estudantes mais capazes do colégio. Com o sucesso acadêmico, veio a vontade de entrar para a Companhia de Jesus.
Toda a obra de Vieira, seus planos e sua visão política se baseavam na Bíblia. O novo mundo passa a ser encarado como o destino das frotas do rei Salomão. Por isso era tão importante preservar os índios do massacre dos colonos portugueses.
Quando vai morar em Portugal, em 1641, torna-se extremamente popular. As igrejas em que pregava ficavam lotadas e as pessoas extasiavam-se com seus sermões. Porém, desgostoso do rumo político que Portugal havia tomado regressa ao Brasil alguns anos mais tarde.
Na época da restauração portuguesa com D. João IV, em 1640, partiu da Bahia para Portugal e durante 13 anos atuou como uma espécie de ministro de extrema confiança junto a El-Rei, tendo desempenhado diversas funções políticas e diplomáticas na Europa.
O Sermão da Sexagésima , portanto, foi pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, a um auditório constituído em sua maioria por pregadores dominicanos, adversários filosóficos dos pregadores jesuítas. O objetivo principal do sermão era, portanto, atingir os provisores do Santo Ofício, que tanto perseguiam o próprio Vieira e que eram pregadores de estilo rebuscado complexo, o que dificultava o entendimento por parte dos ouvintes.
A referência procede. Sabe-se que o Barroco tinha como missão expandir a fé cristã católica e repreender todo tipo de heresia. Dessa forma, esperava-se que os pregadores fossem capazes de ensinar e converter as pessoas. Entretanto, o que estava acontecendo não era isso. A verdadeira finalidade a que se destinava a pregação, isto é, admoestar, ensinar e converter as pessoas, vinha se desvirtuando do púlpito para uma manifestação exterior e mais festiva de culto (algo bastante semelhante ao que vem ocorrendo em algumas igrejas hoje em dia).
É preciso perceber aqui que, na época, em Portugal, em pleno apogeu do Barroco, o sermão religioso havia tornado-se um dos maiores espetáculos artísticos e literários, constituindo-se “uma atividade especial no quadro das atividades religiosas” .
Convivendo com a cultura artística do Barroco, o trabalho de Vieira não poderia deixar de apresentar marcas deste estilo de época, embora com traços bastante peculiares. O que é necessário perceber é que no Sermão da Sexagésima, Vieira critica os exageros do Barroco e também os culpa pelo insucesso das prédicas, afirmando que a responsabilidade pela não frutificação da palavra de Deus está também nos pregadores presos à forma e ao estilo rebuscado e de difícil compreensão; aos que não pregam com o uso da razão e dos exemplos; e aos que privilegiam a vaidade ao arrazoamento no uso da palavra.
O Sermão da Sexagésima
Sabemos claramente que o Sermão da Sexagésima é, sim, um excelente exemplo do conceptismo barroco, mas não apenas isso. Apesar de ser um texto suposto literário, pode e deve ser explorado pelo viés das estratégias argumentativas.
De acordo com Guaranha, Vieira acredita que o texto bíblico, por ter sido inspirado por Deus, é a prefiguração de todas as verdades. Para ele, cada fragmento da Bíblia contém um mistério a ser decifrado. Para isso, desenvolve procedimentos de análise textual. Por meio desses procedimentos, o orador deveria levantar os mistérios contidos nessas particularidades com engenho, partindo dos pressupostos de que há uma relação não-convencional entre a palavra e a coisa significada e que ela contém um mais do que podemos enxergar na superfície.
Está claro que o Sermão da Sexagésima tem como objetivo convencer um público específico de que a palavra de Deus não frutifica por culpa dos pregadores, além de levar seus interlocutores a determinados tipos de comportamento, atuando sobre eles de maneira incisiva no que concerne à fecundidade das palavras proferidas.
“Sexagésima” é considerado o mais importante sermão vieriano. Como foi pregado na Capela Real, em Portugal, podemos concluir que o auditório era particular, composto por católicos da nobreza portuguesa da época. Vieira procura se aproximar do auditório dirigindo-lhe perguntas que ele mesmo, o autor, responde, procurando obter com o isso a adesão do auditório à sua tese principal de que se não havia conversões em massa ao catolicismo na sua época isso ocorria por culpa dos pregadores de então.
Ao analisarmos o Sermão da sexagésima, percebemos Vieira como grande usuário de seu aparato linguístico, em prol da conversão, não só dos gentios, mas também dos próprios pregadores de seu tempo. Ao proferir um sermão metalinguístico, Vieira propõe que a arte de pregar deve ter como objetivo principal a semeadura e a colheita, a persuasão, o convencimento e, principalmente, a salvação das almas. A escolha cuidadosa de termos e a explicação minuciosa de tais escolhas nos apresentam um exímio orador, de linguagem clara, extremamente fervoroso, que tinha na palavra de Deus sua matéria prima. Nele, o projeto político não era dissociado do religioso e a Palavra era o principal instrumento para a concretização desse propósito. “A palavra é divina e Deus está na palavra” (Carvalho 2000: 131).
O tema do Sermão da Sexagésima é a “Parábola do semeador”, tirada do Evangelho segundo São Lucas: Semen est verbum Dei. Neste sermão, o Padre Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Traçando paralelos entre a parábola bíblica sobre o semeador que semeou nas pedras, nos espinhos (onde o trigo frutificou e morreu), na estrada (onde não frutificou) e na terra (que deu frutos), Vieira critica o estilo de outros pregadores contemporâneos seus (e que muito bem caberia atualmente), que pregavam mal, sobre vários assuntos ao mesmo tempo (o que resultava em pregar em nenhum), ineficazmente e agradavam aos homens ao invés de pregar servindo a Deus.
Vieira estava interessando em saber o motivo de a pregação católica estar surtindo pouco efeito entre os cristãos.
Sendo a palavra de Deus tão eficaz e tão poderosa, pergunta ele, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Depois de muito argumentar, conclui que a culpa é dos próprios padres. Eles pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus, afirma. Dito de outra maneira, o jesuíta reclama daqueles que torcem o texto da Bíblia para defender interesses mundanos. Ocorrem-me aqui diversos exemplos, os quais nem precisam ser enumerados. Todos sabemos muito bem com que frequência isso acontece em nossos dias e desde aquela época vem se proliferando a um ritmo assustador.
É interessante notar que, num primeiro nível de leitura, o discurso de Vieira parece ser, na maioria das vezes, monológico. Tem-se a impressão de que, mesmo quando ele faz perguntas ao público, são perguntas retóricas, vazias. Contudo, ao observarmos mais atentamente, iremos perceber a existência de uma interlocução inerente ao sermão; essa dialogia está ligada ao fato de que ele – como toda argumentação – visa a uma mudança, aspira a criar ou a aumentar o assentimento da plateia à tese proposta. O persuadido, ao dar seu assentimento, muda de atitude, modifica seus valores. E essa mudança está diretamente relacionada à ação. Todo o discurso do jesuíta português está centrado no leitor e no auditório e, em última instância, volta-se para o exercício de convencer o ouvinte a adotar a doutrina pregada. Não por acaso, o interlocutor é aquele que deve captar uma verdade absoluta, impessoal, universal, acima de quaisquer circunstâncias. E mais: para conhecer o mundo, é preciso conhecer o texto divino porque o mundo profano é um conjunto enigmático e duro. A chave para a correta decifração do mundo está na leitura da Bíblia, que só pode ser efetuada de maneira clara e certeira pelo sacerdote, apoiado no Magistério da Santa Igreja.
Podemos concluir, outrossim, que Vieira fez um grande bem à língua portuguesa, deixando como herança uma profícua produção textual, tanto de caráter retórico quanto religioso, profético, literário e político, produzindo na nossa língua como se essa fosse a língua na qual Deus desejava ouvir sua Palavra e ver ação desta mesma Palavra nos homens.
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