Publicado por Tht em 10/4/2011 (665 leituras)
Dom Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro
Durante o nosso itinerário batismal, chegamos ao anúncio de que viver a vida cristã é renascer, ter vida nova, sair do túmulo! A experiência cristã é justamente essa vida que brota do encontro com Cristo e que torna a pessoa discípula-missionária.
A passagem do Evangelho do quinto domingo deste tempo favorável da Quaresma (cf. Jo 11,1-45) está entre tantas daquelas que mostram a força e a grandeza de Jesus; Ele está longe da aldeia de Marta, Maria e Lázaro, quando chega a notícia da morte de seu amigo. Jesus tinha muitos problemas na Judeia para voltar por causa das ameaças recebidas, mas, por causa do seu amigo, decidiu ir assim mesmo: Ele não se distancia do sofrimento e da tragédia da vida.
Podemos pensar em quantas vezes nós não nos importamos com as pessoas, com seus problemas e suas dificuldades. Isso tanto nas questões cotidianas como no anúncio de uma Boa Notícia para aqueles que a esperam, como a terra seca e árida pedindo chuva.
Muitos dos nossos, ainda hoje, muitas vezes querem ficar longe, ficar longe de tantos Lázaros enterrados e oprimidos. Talvez esses, como Marta, também se voltem para Jesus e lhe digam uma espécie de censura: "Se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido" É como dizer: "Se tu estivesses perto, Senhor, não teria acontecido essa desgraça", ou "Se você estivesse ao lado do povo, esses assassinatos não teriam ocorrido", e assim por diante. O Evangelho, de fato, nos diz que não é Jesus que está longe, mas os homens. E, às vezes, isso impede até mesmo de chegar perto de Jesus. Perguntemo-nos onde estamos, sim, enquanto milhões morrem de fome? Onde estamos, enquanto milhares de pessoas estão sozinhas e abandonadas em hospitais? Infelizmente nós, muitas vezes, estamos longe de nossos irmãos.
Podemos estar falhando em anunciar essa proximidade do Senhor diante da vida e sofrimentos da pessoa. Porém, o Senhor está ali, próximo, e chora sobre seus amigos abandonados, como chorou por Lázaro. Isso vai acontecer com Ele em poucos dias, no Getsêmani, quando ficará sozinho e suará e derramará como gotas de sangue. Jesus fica sozinho na frente de Lázaro a esperar contra todas as probabilidades. Até mesmo as irmãs tentam dissuadi-lo, mas Ele quer abrir o túmulo. "Senhor, já cheira mal: está lá há quatro dias", diz Marta. Este texto vai, porém, muito mais longe: é o anuncio batismal que nos chama a uma nova vida.
A vida no pecado e longe de Deus pode desencadear um desânimo, achando que nada tem mais jeito. Os que ainda não foram iluminados pelo batismo podem pensar que não vale a pena sair da situação em que se encontram. Muitos acham impossível alguém sair da situação podre de sua vida. É o grande anúncio batismal que está no centro da perícope deste domingo.
O amor do Senhor não conhece limites, mesmo os de morte: quer o impossível. Esse túmulo, portanto, não é a última morada dos amigos de Jesus, por isso grita: "Lázaro, vem para fora". Um amigo ouve a voz de Jesus, exatamente como está escrito: "As ovelhas conhecem a sua voz". E, novamente, o bom pastor "chama as suas ovelhas, cada uma pelo nome e as conduz para fora" (Jo 10, 3). E agora o profeta Ezequiel tinha escrito: "Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e vos farei sair das vossas sepulturas, ó meu povo" (37, 12). Lázaro escuta, e sai. Jesus não fala a um morto, mas a um vivo, talvez para um que está dormindo, por isso grita. E convida os outros para desenrolarem as faixas em que o amigo encontra-se envolvido. Mas libertando Lázaro “morto” das faixas, Jesus liberta-nos, na verdade, cada um de nós do egoísmo, da frieza, da indiferença, da morte dos sentimentos. Temos necessidade de que outros nos ajudem em nosso itinerário batismal, desenrolando as faixas que nos amarram. É justamente a figura da nova criatura que deve ressuscitar com Cristo. "Eu sou a ressurreição e a vida", disse o Senhor. No seu Evangelho, em seu corpo, a vida é ressuscitada. "Tirai a pedra".
O Papa Bento XVI em sua mensagem quaresmal nos ensina que: “Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: “Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?” (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: “Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos, a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé, todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança. O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas batismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos “da água e do Espírito Santo”, e reconfirmamos o nosso firme compromisso em corresponder à ação da Graça para sermos seus discípulos”.
Jesus abre o lugar da morte, Ele nos tira de nossas mortes, arranca-nos dos túmulos! É vida do batizado, do cristão que morre com Cristo e com Ele ressuscita! "Lázaro, vem para fora". Jesus chama a todos pelo nome. Assim é o nosso batismo; somos chamados pelo nome! O nome significa toda a vida de um homem. Ele defende-nos do mal. Seu amor é pessoal. Hoje, a amizade de Deus, que vemos refletida na amizade que Ele gera entre os homens, recorda a alegria dos corações em um mundo reduzido aos túmulos. Lázaro antecipa a Páscoa quando Jesus, o redentor do homem, traz a vida para os que creem n´Ele e nos chama a anunciá-Lo com alegria aos irmãos e irmãs de nosso tempo.
Fonte: Arquidiocese do Rio
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro
Durante o nosso itinerário batismal, chegamos ao anúncio de que viver a vida cristã é renascer, ter vida nova, sair do túmulo! A experiência cristã é justamente essa vida que brota do encontro com Cristo e que torna a pessoa discípula-missionária.
A passagem do Evangelho do quinto domingo deste tempo favorável da Quaresma (cf. Jo 11,1-45) está entre tantas daquelas que mostram a força e a grandeza de Jesus; Ele está longe da aldeia de Marta, Maria e Lázaro, quando chega a notícia da morte de seu amigo. Jesus tinha muitos problemas na Judeia para voltar por causa das ameaças recebidas, mas, por causa do seu amigo, decidiu ir assim mesmo: Ele não se distancia do sofrimento e da tragédia da vida.
Podemos pensar em quantas vezes nós não nos importamos com as pessoas, com seus problemas e suas dificuldades. Isso tanto nas questões cotidianas como no anúncio de uma Boa Notícia para aqueles que a esperam, como a terra seca e árida pedindo chuva.
Muitos dos nossos, ainda hoje, muitas vezes querem ficar longe, ficar longe de tantos Lázaros enterrados e oprimidos. Talvez esses, como Marta, também se voltem para Jesus e lhe digam uma espécie de censura: "Se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido" É como dizer: "Se tu estivesses perto, Senhor, não teria acontecido essa desgraça", ou "Se você estivesse ao lado do povo, esses assassinatos não teriam ocorrido", e assim por diante. O Evangelho, de fato, nos diz que não é Jesus que está longe, mas os homens. E, às vezes, isso impede até mesmo de chegar perto de Jesus. Perguntemo-nos onde estamos, sim, enquanto milhões morrem de fome? Onde estamos, enquanto milhares de pessoas estão sozinhas e abandonadas em hospitais? Infelizmente nós, muitas vezes, estamos longe de nossos irmãos.
Podemos estar falhando em anunciar essa proximidade do Senhor diante da vida e sofrimentos da pessoa. Porém, o Senhor está ali, próximo, e chora sobre seus amigos abandonados, como chorou por Lázaro. Isso vai acontecer com Ele em poucos dias, no Getsêmani, quando ficará sozinho e suará e derramará como gotas de sangue. Jesus fica sozinho na frente de Lázaro a esperar contra todas as probabilidades. Até mesmo as irmãs tentam dissuadi-lo, mas Ele quer abrir o túmulo. "Senhor, já cheira mal: está lá há quatro dias", diz Marta. Este texto vai, porém, muito mais longe: é o anuncio batismal que nos chama a uma nova vida.
A vida no pecado e longe de Deus pode desencadear um desânimo, achando que nada tem mais jeito. Os que ainda não foram iluminados pelo batismo podem pensar que não vale a pena sair da situação em que se encontram. Muitos acham impossível alguém sair da situação podre de sua vida. É o grande anúncio batismal que está no centro da perícope deste domingo.
O amor do Senhor não conhece limites, mesmo os de morte: quer o impossível. Esse túmulo, portanto, não é a última morada dos amigos de Jesus, por isso grita: "Lázaro, vem para fora". Um amigo ouve a voz de Jesus, exatamente como está escrito: "As ovelhas conhecem a sua voz". E, novamente, o bom pastor "chama as suas ovelhas, cada uma pelo nome e as conduz para fora" (Jo 10, 3). E agora o profeta Ezequiel tinha escrito: "Eis que eu abrirei as vossas sepulturas, e vos farei sair das vossas sepulturas, ó meu povo" (37, 12). Lázaro escuta, e sai. Jesus não fala a um morto, mas a um vivo, talvez para um que está dormindo, por isso grita. E convida os outros para desenrolarem as faixas em que o amigo encontra-se envolvido. Mas libertando Lázaro “morto” das faixas, Jesus liberta-nos, na verdade, cada um de nós do egoísmo, da frieza, da indiferença, da morte dos sentimentos. Temos necessidade de que outros nos ajudem em nosso itinerário batismal, desenrolando as faixas que nos amarram. É justamente a figura da nova criatura que deve ressuscitar com Cristo. "Eu sou a ressurreição e a vida", disse o Senhor. No seu Evangelho, em seu corpo, a vida é ressuscitada. "Tirai a pedra".
O Papa Bento XVI em sua mensagem quaresmal nos ensina que: “Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: “Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?” (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: “Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos, a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé, todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança. O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas batismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos “da água e do Espírito Santo”, e reconfirmamos o nosso firme compromisso em corresponder à ação da Graça para sermos seus discípulos”.
Jesus abre o lugar da morte, Ele nos tira de nossas mortes, arranca-nos dos túmulos! É vida do batizado, do cristão que morre com Cristo e com Ele ressuscita! "Lázaro, vem para fora". Jesus chama a todos pelo nome. Assim é o nosso batismo; somos chamados pelo nome! O nome significa toda a vida de um homem. Ele defende-nos do mal. Seu amor é pessoal. Hoje, a amizade de Deus, que vemos refletida na amizade que Ele gera entre os homens, recorda a alegria dos corações em um mundo reduzido aos túmulos. Lázaro antecipa a Páscoa quando Jesus, o redentor do homem, traz a vida para os que creem n´Ele e nos chama a anunciá-Lo com alegria aos irmãos e irmãs de nosso tempo.
Fonte: Arquidiocese do Rio
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