Depois de todos esses anos como missionário no Oriente, e de minhas pesquisas de campo como paleontólogo e antropólogo, você deve estar achando que meu trabalho nos Arquivos Secretos do Vaticano seja tedioso. Na-na-ni-na. Veja, por exemplo, o caso do documento em javanês arcaico que me chegou, por tortuosos caminhos, do Uzbesquistão. Há poucos dias, finalmente, todas as peças se encaixaram. Era tudo tão simples...
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Alexandre Ramos da SilvaNaquele dia acordei com o pressentimento de que algo ia acontecer. A minúscula fenda ao lado da porta de duas toneladas devolveu meu cartão magnético sem mastigá-lo como de costume, e o sensor de voz, pela primeira vez, não me obrigou a recitar os nomes dos filhos da Baby Consuelo [1] nem a cantar Babalu antes de liberar o acesso. Também consegui de prima o canal por satélite com a Nasa, e pude falar com meu velho amigo, o professor Kalimba Youssef Ben Sholomon, da Universidade da Caríntia. Sim, aquele dia prometia.
Finalmente, depois de cinco longos minutos de trabalho insano, conseguimos a reconstituição holográfica do texto, aparentemente, apenas aparentemente, uma colocação a nível de pergunta, mas, na verdade, trata-se de uma afirmação: debuk izon dheteybol , ou seja, a conhecida frase de Buda para Ananda, que lemos no Rig Veda, usualmente traduzida como “É mole ou quer mais?”, pronunciada por ocasião da homenagem prestada ao mestre pela Torcida Uniformizada Buda Jovem, de Nhun-guaçú-Mirim.
Mas eu não havia passado dois longos anos congelando o traseiro numa paróquia nos contrafortes do Himalaia apenas para olhar a paisagem, mesmo que fossem as belas plantações de romênias. Depois de muitas peripécias, eu havia obtido do grande Lavai Lama, presidente do Sindicato dos Budas, Iluminados e Cabeleireiros de Nova Délhi um precioso manuscrito, em troca de um raro ungüento egípcio à base de gengivas de escaravelho, que deixa suas mãos muito mais frescas e macias, acabando com aquele cheirinho de detergente, água sanitária e gordura, amiga dona-de-casa.
Esse ungüento, eu o havia recebido como prêmio por ter vencido o I Torneio Ecumênico de Danças de Salão e Kung Fu Astral, promovido pela Liga das Senhoras de Sociedade de Lhasa, no Tibet. Naquela ocasião, tive que enfrentar em combates místicos três dos mais terríveis feiticeiros birmaneses: David Cooperfield, Thomas Green Morton e Bezerra da Silva. As regras eram cruéis. Valia tudo, menos morder o ectoplasma. Os perdedores seriam arremessados nas trevas metafísicas exteriores, onde teriam que assistir pela eternidade, com choro e ranger de dentes, ao simpósio A Maconha Como Fator de Liberação Geral dos Oprimidos no Caminho de Santiago: Uma Abordagem Holística, com Paulo Coelho, Frei Betto e Fernando Gabeira.
O tal manuscrito, único exemplar da obra de um erudito romano do século VIXE, Caio Sinequanon, era justamente um Guiae Tetra-Rotas Noctis Romanae, que analisava a sintaxe javanesa em confronto com os estudos filológicos e paleográficos de Noca da Portela. A chave para o tríplice enigma de Andrômeda [2] estava em minhas mãos, he-he-he.
O ponto em questão era aparentemente insignificante, tratava-se de uma expressão copta que, de acordo com a vocalização massorética, tal como a encontramos nos mais antigos sutras, significa algo como “trate de fazer o que eu estou mandando ou vai ficar sem tv, shopping, inglês, natação, internet e jiu-jitsu por uma semana”, fórmula muito encontrada no Guia Espiritual da Mãe Pós-Moderna [3], do Egito pré-dinástico.
De alguma forma, aqueles bicos que andei fazendo para Pinkerton nos tempos de estudante aguçaram meus sentidos, e resolvi investigar até a trigésima-quarta declinação do particípio retardado porque o trem das onze atrasou de novo, e encontrei não só a raiz semântica (com a qual fiz chá e fundei seita, mas isso é outra conversa), mas um precedente histórico: no ano 70 de nossa era, quando Tito passava com suas quatro legiões por Jerusalém, a caminho de Tiberíades, o nobre legado romano espirrou, e um camponês judeu que estava à beira da estrada disse “saúde”, mas o intérprete, que não estava familiarizado com as sutilezas do pensamento semítico, traduziu simplesmente como “romanos, go home”, e aí foi aquilo que todos conhecemos.
Aplicando minhas descobertas à frase de Buda, fiquei pasmo diante da verdade inexorável que apare-cia, letra a letra, na tela de meu computador: Um elefante incomoda muita gente; o Lula e o José Dirceu incomodam muito mais.
O delicado equilíbrio do Sudeste da Ásia estava em risco, e milhões de pessoas poderiam, em minutos, ser envolvidas por uma guerra de dimensões inimagináveis, cujas prováveis conseqüências me fizeram tremer. Eu precisava fazer alguma coisa imediatamente. Acessando rapidamente a conexão com o satélite em meu quase fiel teclado, ainda pude pegar o segundo tempo de Bangu x América. O Bangu precisa rever com urgência a escalação do meio-campo.
Notas
[1] Sarah Sheeva, Zabelê, Nanashara, Pedro Baby, Krishna Baby e Kriptus Rá.
[2] Com quantos paus se faz uma canoa? Qual o valor de xis? Quem matou Odete Reutman?
[3] Edição crítica por Martha Akhennaton Chuí, Ed. Papyrus, rolo 5, prefaciado por Herodes.
Republicação:
- Acervo
Dados recuperados sobre o original deste artigo (atualmente perdido):
Original publicado por alexrs
Data: 20 de Janeiro de 2006
Avaliação: nota 10 com 8 votos
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